domingo, 16 de março de 2008

Equipa da Educação não tem pejo em faltar à verdade

2008-03-16 - 00:30:00

Entrevista CM: Mário Nogueira


Mário Nogueira, secretário-geral da Federação Nacional de Professores, afirma que os professores querem ser avaliados, mas não nesta altura do ano lectivo e com este modelo. Diz que Sócrates vai ter um ano complicado se não mudar de ministra e acusa Maria de Lurdes Rodrigues e a sua equipa de fazerem propaganda e de não terem pejo em faltar à verdade.


Correio da Manhã – Os professores aceitam ser avaliados ou não?

Mário Nogueira – Os professores acham que devem ser avaliados. Desde a primeira hora, desde os anos oitenta, quando foi aprovado o primeiro estatuto, os professores e a Fenprof assumiram um modelo de avaliação que, em minha opinião, era mais exigente que este e que os anteriores. O que não era difícil.

- Então o que é que está em causa nesta luta?
- A questão prende-se com o objectivo da avaliação. Uma avaliação, em nossa opinião, deve sobretudo ser orientada para melhorar a qualidade do desempenho dos professores e daí melhorar a qualidade do ensino. Por isso mesmo nós achamos que deve ser uma avaliação sobretudo de matriz formativa.

- O que é que quer dizer com isso?

- Deve servir para que se detectem as dificuldades, os problemas, as lacunas que os professores têm no seu desempenho. Deve servir para elaborar um diagnóstico com esses problemas e deve servir para definir estratégias que podem passar pela formação, pelo acompanhamento e pelo apoio. E podem até, no limite, e nós nunca contrariámos isso, chegando-se à conclusão que o professor não tem condições deve-se, respeitando a sua habilitação, haver um processo de reclassificação de função profissional.


- E na carreira dos professores?

- Também achamos que deve ter repercussão na própria carreira.


- Não aceitam é que condicione a progressão na carreira.

- Não. O que nós somos contra é que a avaliação se oriente sobretudo para isso. Isso está claro nas nossas propostas. E não foi fácil chegarmos a um consenso porque são catorze organizações sindicais. Mas conseguimos construir uma só. O processo começou com catorze propostas diferentes e acabou com uma só de todos os sindicatos. Todos nós fizemos cedências e procurámos assim facilitar a própria negociação.


- Foram negociar com o Ministério uma só proposta?

- Exacto. Porque uma coisa era o Ministério ter uma proposta com que pudéssemos entrar em diálogo e negociação e outra coisa era ter catorze.


- O que é então inaceitável na proposta do Ministério?

- Quando me vêm dizer que esta avaliação tem por objectivo promover a excelência e promovendo-se a excelência parte-se do princípio que os professores vão ser melhores profissionais, vão ter melhor desempenho, vão eventualmente conseguir até na sua avaliação chegar às melhores classificações e depois a promoção da excelência passa por impor mecanismos administrativos, como sejam as quotas, para que os professores não possam ver reflectidas nas classificações aquilo que é o seu desempenho é inaceitável. Somos completamente contra isso.


- Este processo de avaliação, portanto, nem pensar?

- Este processo definitivamente não.


- Querem que seja suspenso.

- Mas sabe que a questão da suspensão neste momento não tem a ver com o modelo. Se fosse o modelo que nós defendêssemos a questão colocava-se na mesma. Neste momento, sobretudo respeitando as crianças, os alunos, introduzir uma coisa que é nova no terceiro período lectivo é irresponsável. É irresponsável.


- Por causa dos testes e dos exames?

- Repare. O terceiro período lectivo é quando os alunos estão a preparar os exames, são os momentos de recuperação, os professores já têm dois períodos lectivos, já têm algum cansaço acumulado, e é quando os professores precisam de ter tudo menos coisas que os distraiam do trabalho com os alunos. Por isso, ir introduzir no terceiro período um factor de instabilidade é irresponsável.


- Essa instabilidade de que fala atinge as escolas?

- Nas escolas. Porque as escolas vão ter de reunir os órgãos, vão ter que aprovar uma série de mecanismos que significa andar a fazer reuniões, a discutir coisas que não estão discutidas, significa aprovar fichas e documentos, instrumentos que as pessoas nem sabem como se têm de fazer, porque não houve formação para isso.


- É uma complicação imensa no final do ano lectivo.

- É. E por isso nós achamos que era lógico que se deixasse, e foi isso que nós dissemos, que se suspendesse neste período.


- Aceitavam que começasse no início do próximo ano lectivo?

- Exactamente. Para que as escolas fossem avançando por si na reflexão e aprovação dos instrumentos e no outro ano começasse em regime experimental.


- Como propôs o socialista António Vitorino?

- O que o doutor António Vitorino disse tem toda a lógica. Primeira era experimental e depois corrigia-se. Muitos dos académicos e especialistas da avaliação consideram que é também aventureirista avançar com a avaliação generalizada a 150 mil professores sem ter havido um teste.


- Não houve experiência nenhuma?

- Nada. Ninguém sabe se, por exemplo, aquelas fichas com aquelas ponderações têm ou não efeitos perversos, o que é que significam no fim da avaliação. A senhora ministra tem afirmado, e muito bem, que não há modelos de avaliação perfeitos. É certo. Agora, ninguém sabe o grau de imperfeição deste. E é um bocado aventureirista e até revela uma falta de responsabilidade avançar com um modelo generalizado, um modelo que até pode ter efeitos perversos na forma como as classificações vão ser feitas. E isto porque ninguém experimentou, eles não experimentaram.


- Não de pode emendar depois de entrar em prática?

- Mas vão fazer o quê se isso acontecer? Andar a remediar, andar a remendar, andar a anular?


- A ministra afirmou que este ano lectivo apenas vão fazer avaliações aos sete mil professores contratados. Isso é não é possível?

- Isso não é verdade.


- Não é verdade?

- Não é verdade, porque a senhora ministra confunde, ou se não confunde quer que as pessoas confundam. Confunde duas coisas. Avaliação com classificação. Os sete mil de que a senhora ministra fala, não sei se são ou não, mas o Ministério certamente saberá e certamente fala verdade, são os contratados que necessitariam de ter uma classificação de serviço. Mas a classificação é o último passo de todo o processo. Ou seja, o processo de avaliação tem entrevistas, tem observações, tem fichas, tem isso tudo.


- É de facto uma grande confusão.

- É estranho. Porque a senhora ministra tem dito muitas vezes que quem contesta a avaliação fá-lo por desinformação mas a senhora ministra no seu discurso procura sistematicamente desinformar as pessoas. E isso é que não é correcto nem justo. Mas mesmo para esses professores contratados a situação é injusta. Estamos a falar de pessoas que foram colocadas no dia 1 de Setembro até final do ano. Só vão ter avaliação para este ano, porque é um contrato de um ano, e é, em nossa opinião, injusto e perigoso fazer incidir a avaliação de um ano de trabalho num período. Quer dizer, desprezar dois terços do seu trabalho e ir avaliar um terço é injusto.


- Recusam por isso que sejam avaliados?

- O que temos dito é que o Ministério da Educação encontre uma forma. Repare, durante dois anos e meio o tempo de serviço na Função Pública esteve congelado e a avaliação de desempenho estava suspensa. E há mais um aspecto curioso. A avaliação de desempenho estava tão ligada à progressão na carreira que os sindicatos durante o tempo do congelamento continuaram a dizer que as pessoas deviam continuar a ser avaliadas nesse período.


- E o que é que respondeu o Ministério?

- Como não havia progressão o Ministério achou que não valia a pena e até deu orientação para não serem avaliadas. Está a ver? Quem é que não quer a avaliação?


- Em vossa opinião, esta avaliação está associada essencialmente a quê?

- Está sobretudo orientada para definir os ritmos de progressão na carreira e a permanência na profissão.


- Apesar disso, há aspectos positivos neste modelo ou não?

- Há alguns parâmetros que poderiam estar na nossa proposta. Isso é evidente. Mas não é essa a questão. Claro que não aceitamos a questão dos resultados e do abandono escolar. É evidente que achamos que os professores devem orientar o seu trabalho para a obtenção dos melhores resultados possíveis dos alunos. Ser avaliados por isso achamos que não.


- Um professor pode chumbar 70 por cento dos alunos e ser excelente.

- Exactamente. É uma situação que deve ser analisada dentro da escola. Se numa turma 70 por cento dos alunos reprovam isso deve merecer uma reflexão. Agora avaliar um professor em função disso não.


- O Ministério diz que esse parâmetro tem um peso reduzido, cerca de 6,5 por cento. É verdade?

- O Ministério diz isso mas até pode ser mais. Nem todos os parâmetros das fichas de avaliação são aplicados a todos os professores. Veja o desempenho de cargos. Há professores que não têm cargos. Neste momento só os titulares. Portanto, a ponderação desse parâmetro vai ser distribuída pelos outros. E nesses casos o parâmetro das notas pode chegar a 10 por cento.


- São 30 parâmetros no todo?

- Sim, no conjunto de todas as fichas. Quando não se aplica um o peso desse é distribuído pelos outros e aumenta a percentagem. Mas achamos bem que seja avaliado na sua relação pedagógica com os alunos, por exemplo.


- E as observações das aulas. Concordam?

- Não somos contra as observações de aulas ou as entrevistas. O que achamos que é um bocado absurdo é que obrigatoriamente por ano os professores tenham de ter três observações. O que significa por ano meio milhão de observações de aulas.


- Mas concordam que existam.

- Sim. Mas o que nós defendemos é que a observação é um instrumento de avaliação que deveria ser utilizado nos casos de avaliação excepcional, ou para cima ou para baixo, para retirar dúvidas que existissem, em situações dúbias ou a pedido das pessoas. Não estamos nada contra isto.


- E as entrevistas.

- Também não. Em situações em que se torna necessário tirar dúvidas é aceitável que a pessoa tenha uma entrevista. Agora que obrigatoriamente, 150 mil pessoas tenham de ser entrevistadas por ano, isso é que achamos que é a burocratização do processo.


- Como é que explica então esta ruptura entre os sindicatos e o Ministério da Educação? Não é só por causa da avaliação.

- Não, eu acho que a avaliação está extremamente valorizada agora porque é uma questão muito em cima da mesa. O problema da avaliação não é o mais grave do Estatuto da Carreira. O problema é mais grosso.


- O problema está no Estatuto da Carreira Docente?

- Quando avançámos para o início da revisão do Estatuto da Carreira Docente nós tínhamos uma experiência positiva em relação aos anteriores. A última e a primeira, que foi em 1997, foi um processo em que com menos reuniões se chegou a resultados.


- No tempo do Governo de Guterres.

- Sim. Foi um processo que começou por aquilo que o secretário de Estado da altura, Guilherme d’Oliveira Martins, chamava de a comissão de partir pedra. Eram reuniões técnicas, não eram políticas, em que nós identificámos o que estava bem, em que não era preciso mexer, e o que é que estava mal. Fomos desbravando terreno até que entrámos na parte negocial, já na negociação política, que terminou com um acordo. O que mostra que nós fazemos acordos.


- A ideia que passa não é bem essa. É que dizem não a tudo.

- Vou-lhe dar um exemplo. Acho que isto é importante porque às vezes se valoriza muito a senhora ministra e os sindicatos são sempre do contra. Ainda recentemente chegámos a acordo com a Associação dos Estabelecimentos Privados (AEP) sobre a avaliação dos professores. Portanto, nem somos contra o modelo de avaliação e até temos no nosso currículo recente precisamente este acordo com a AEP. O que nem sempre é fácil, até porque os graus de dependência são superiores aos da Função Pública.


- Estava a falar nas negociações de 1997. E agora, com esta ministra, como foi?

- Nós partimos para este processo com a senhora ministra da Educação a dizer que vai fazer-se a revisão do Estatuto, vai negociar-se a revisão do Estatuto, mas nem tudo vai estar em cima da mesa, nem tudo vai estar em negociação.


- O que é que ficou de fora?

- Ficaram aspectos fundamentais. As quotas na avaliação, a questão dos resultados escolares como sendo um dos parâmetros com peso na avaliação, a divisão da carreira em categoria com um exame.


- Também estão contra esse exame?

- Nós chegámos a admitir um exame. Em que os professores não tivessem que fazer apenas a avaliação normal mas em que tivessem também de fazer prova curricular, tivessem de fazer uma prova, não lhe vou chamar de exame. Nós admitíamos isso desde que o Ministério da Educação aceitasse que quem mostrasse competência, capacidade e mérito para passar no exame passasse.


- O que é que o Ministério disse?

- Muito simples. Disse que aceitava isso mas que, mesmo que os 150 mil professores passassem era o Ministério que definia quem podia avançar em função das vagas.


- Por um lado as quotas e por outro as vagas?

- Nós temos duas coisas. As quotas e as vagas de acesso aos três escalões de topo. Nós chegámos a admitir isso. Mesmo contra a opinião de alguns colegas. Fizemos essa proposta em nome da Plataforma. Agora, se o professor tem mérito, tem mérito. Não tem, não tem. Fica ali. Não aceitaram. Está a ver. Há a questão das quotas, das vagas, das categorias e dos horários de trabalho. Não aceitaram nada.


- Também contestaram as aulas de substituição.

- Não. Está a ver, isso é outra coisa. Há dias li o que escreveu. Nós nunca fomos contra as aulas de substituição. Isso é outro dos equívocos que a senhora ministra lançou. O que nós dissemos sempre foi que as aulas de substituição devem ser de acordo com o que está na lei. Porque as aulas de substituição não foi uma invenção desta ministra. Já se faziam.


- Então porque é que houve mais esta guerra.

- Repare. A própria ministra, quando se reuniu com a Fenprof em Outubro ou Novembro de 2005, faz agora três anos, disse que era necessário corporizar as aulas de substituição que estavam previstas no Estatuto. Nós dissemos que já existiam.


- E que disse a ministra?

- Disse que existiam apenas em sete por cento das escolas. É verdade. Mas tinham o processo bem organizado. Ora se o Ministério diz que valoriza muito as boas práticas peguemos nesses sete por cento e vamos generalizar.


- Não fez isso?

- Não. A senhora ministra achou que tinha era que liquidar esses sete por cento. E a grande discussão que tivemos foi sobre a organização das aulas. Porque as aulas, nos termos da lei obedeciam a certas regras. Não era só a questão do pagamento.


- Mas também era, ou não?

- Também. Porque a aulas de substituição é um momento de actividade lectiva que acresce à actividade lectiva que o professor tem.


- Os professores têm horários definidos?

- Por exemplo. Um professor tem um horário de 25 horas, um horário lectivo completo e depois quando entra numa aula de substituição fica com mais aula. E a lei previa isso como serviço extraordinário.


- Não era a questão principal?

- Não era só isso. O que a lei previa, e foi sempre o que dissemos e que evitava aquela história do professor de matemática ir substituir o de inglês, era que os professores tinham que informar, pelo menos na véspera, que iam faltar. E a escola tinha de avisar um colega do grupo para dar essa aula de substituição. E foi isso que nós defendemos.


- À primeira vista parece lógico.

- O que nós exigimos foi muito claro. Exigimos que o Ministério respeitasse estritamente o que estava no Estatuto da Carreira Docente, que estava bem, estava correcto.


- E não quiseram porquê?

- Não quiseram essencialmente por causa do dinheiro.


- É sempre uma questão de dinheiro?

- É sempre. Eles não quiseram por causa do pagamento. E a ruptura dá-se precisamente por eles não quererem respeitar a lei. E é isso que nos leva a ir para o tribunal.


- As célebres acções no Tribunal Administrativo. Nem aí há a acordo sobre as sentenças.

- Exacto. O secretário de Estado da Educação foi sempre dizendo que não era nada e que podíamos ir. Nós ganhámos os processos todos.


- Aí também não se entendem.

- Há dias vi-o dizer que tinha nove processos. Gostava de saber quais são porque não tem nada. Mas ganhámos, eles recorreram dos que podiam recorrer – e a incompetência é de tal ordem que até deixaram passar um sem recorrer -, e mesmo nesses perderam. Portanto, nós temos oito, bastavam cinco em que não podem mexer porque já passaram os prazos de recurso, temos mais três em recurso. E deu nisto.


- Esse pagamento vai custar os tais três milhões de euros?

- A questão principal não é essa. A questão não é o professor ir cobrar as duas horas ou três que fez a mais. Alguns já nem se lembram e outros já estão aposentados. A questão é política. Política no aspecto de que as leis são para cumprir. Não somos nós que as fazemos.


- O mesmo acontece nas providências cautelares?

- Exacto. Não fomos nós que concebemos este modelo de avaliação. Não fomos nós que dissemos que tinha de haver um Conselho Científico com recomendações. Foram eles que impuseram isso. Então agora têm de cumprir a lei. E a ministra aproveitou a ruptura nas aulas de substituição para vir dizer que, vejam lá, eu aqui tão preocupada a criar as aulas de substituição e eles agora não as querem. Nunca esteve em cima da mesa querer ou não querer.


- A ruptura com a ministra é total em quase todos os pontos. Mas não houve nada de positivo? Nem mesmo os concursos de colocação válidos por três anos?

- Mesmos nos concursos a senhora ministra parte de uma afirmação que não é verdade. A senhora ministra disse que tinha conseguido que os cerca de 70 ou 80 por cento dos professores que mudavam de escola todos os anos ficassem na mesma escola três anos.


- E isso não é verdade?

- Não. O que tinha acontecido no último ano de concurso é que 80 e tal por cento dos professores tinham concorrido. O que aconteceu é que mudaram de escola 16 por cento. E isso ela nunca disse. Joga com os números.


- Isso não sabia.

- Foi isso. O número real foi esse. Só 16 por cento mudaram de escola. Repare. Não são 16 por cento dos professores. Foram 16 por cento dos que se candidataram. Isso é que ela devia dizer. E devia reflectir porque é que 80 e tal por cento dos professores concorrem mesmo sem mudar.


- Já agora porque é?

- Concorrem porque a estabilidade não só estar num sítio de que não se pode sair. Estabilidade é estar num sítio em que a pessoa se mantenha, mas que simultaneamente se mantenha com estabilidade do ponto de vista emocional e familiar.


- Este sistema, em sua opinião, não tem grandes vantagens.

- Do ponto de vista prático posso dizer-lhe que as mobilidades este ano não foram muito diferentes dos outros. Porque o concurso era anual, em teoria podiam concorrer 100 por cento dos professores, mas como cada vez havia menos vagas, mesmo com esse sistema as mudanças eram residuais.


- E o inglês no primeiro ciclo. Não foi uma medida positiva?

- Nós não estamos contra o inglês. O que nós fomos contra é que o Ministério tivesse introduzido o inglês de uma forma que discrimina alunos e não o tivesse introduzido no currículo. Porque o problema é que ao introduzir o inglês nos prolongamentos de horário está a fazê-lo sem qualidade. Porque há pessoas não habilitadas a dar inglês. E depois está a fazê-lo num tempo onde nem todos os alunos podem estar.


- Está a falar nos prolongamentos dos horários até às cinco e meia da tarde?

- Sim. Porque nem todos os pais têm vida para que os seus filhos estejam na escola até a essa hora. Porque só saem às sete. E ao meter o inglês nesse prolongamento de horário há muitos alunos que não o têm. É facultativo.


- O Governo fala sempre disso como uma grande medida.

- Os cartazes dizem que 99 por cento das escolas têm inglês. Pois têm. Mas agora interessava ver a percentagem de alunos que frequentam as aulas.


- Saindo às cinco e meia não podem ir o resto do tempo para os ATL?

- Os ATL, como é evidente, não os aceitam por hora e meia.


- Os prolongamentos também não são bons, portanto?

- Até às cinco e meia não. Porque os pais trabalham até mais tarde. E por isso muitos pais tiram os filhos da escola mal acabam as aulas obrigatórias e metem-nos no ATL até ao fim da tarde.


- Falou em pessoas não habilitadas. Há muitos casos desses? Com empresas externas?

- Exacto. Lembro-me aqui de uma Câmara que tinha o arquitecto da autarquia a dar inglês.


- Em Lisboa?

- Em Lisboa e em todo o lado. O inglês não é curricular, é fora do horário lectivo, discrimina alunos. E isto é um problema. Porque um professor apanha alunos no segundo ciclo com preparações diferentes. Foi essa a nossa crítica. Não ao inglês propriamente disso. E só fizeram isso para não admitirem professores. Se estivesse no currículo tinham de os contratar.


- Ninguém controla a qualidade?

- Deram essa responsabilidade às Câmaras, as Câmaras contrataram empresas e não se sabe quem é que dá as aulas.


- Mais uma medida falhada, portanto.

- Repare. Uma coisa fundamental para as escolas públicas sobreviverem é terem uma resposta social. É terem uma resposta que sirva as famílias para além das aulas. Porque se isso não acontece as famílias vão procurar escolas privadas.


- Se tiverem dinheiro.

- Obviamente. Se tiverem dinheiro. E até isso é discriminatório. E nós dissemos isso à ministra, que não quis ouvir ninguém. Vão buscar o exemplo que já têm no terreno, que é a chamada componente de apoio à família no pré-escolar.


- Como é que funciona?

- Os jardins de infância públicos têm essa componente creio desde 1997. Foi feito um protocolo entre o Governo e a Associação Nacional de Municípios, em que são transferidas verbas, em que os miúdos têm actividades próprias, com pessoal próprio, com material próprio, com espaços próprios. Generalizem isso para o primeiro ciclo. E é uma resposta correctíssima.


- Veremos se não acaba?

- Pois. Essa é a nossa preocupação. Que destruam o que têm bem no pré-escolar e apliquem os prolongamentos do primeiro ciclo.


- A gestão das escolas. A questão do director. Não concordam com essa mudança?

- Às vezes há a ideia de que os sindicatos são contra tudo. Pelo contrário.


- Essa ideia está muito generalizada. Que são conservadores e têm horror à mudança. Sabe que essa ideia existe.

- Sei perfeitamente. Farto-me de ler isso. Mas não é verdade. Nós reagimos muitas vezes ao tipo de mudança. Mas basta ver o nosso site e as nossas publicações e vê que temos imensas propostas. Nós nunca vamos para nenhuma negociação sem ter propostas. Nunca aconteceu irmos e dizermos que ficava tudo na mesma, que éramos contra isto ou aquilo.


- E sobre a gestão? Qual é a vossa proposta?

- Nós defendemos o que o Conselho Nacional de Educação sempre defendeu. O Conselho defendeu, e muito bem, que se avaliasse o modelo actual, se detectassem os problemas que tinha e que se mudasse o que estava mal. Não era mudar por mudar. E a nossa posição é essa. Vamos fazer uma avaliação do que existe. Isso é que faz sentido. A ministra da Educação não quis saber disso para nada. O que existe vai para o lixo, faz-se outro.


- Supostamente o novo reforça a autonomia das escolas.

- Esse é o discurso. Repare. É verdade que nós preferimos os órgãos colegiais aos unipessoais. É verdade. Mas nem vou dar-lhe muitos argumentos para justificar essa posição. O que interessa é que o actual modelo já permite que as escolas façam essa escolha. Colegial ou um director. Há escolas que têm um director.


- Já há escolas com director?

- Já. Mas é uma das competências das escolas e da sua autonomia. E 98 por cento das escolas optaram por um órgão colegial. Em nome do reforço da autonomia a senhora ministra diz que a partir de agora impomos o unipessoal para toda a gente e não há hipótese de escolha. Actualmente, a autonomia das escolas permite que as escolas decidam se o presidente do conselho executivo é ou não é presidente do conselho pedagógico. E a maior parte das escolas decidiu ter presidentes diferentes. Em nome da autonomia a senhora ministra decidiu que o director vai passar a ser também o presidente do conselho pedagógico.


- É a autonomia à força?

- É. Mas há mais. O Conselho Pedagógico é constituído pelos coordenadores de departamento, escolhidos pelos respectivos elementos. Em nome da autonomia o director vai passar a nomear esses coordenadores. Actualmente as escolas organizam-se em departamentos de acordo com o que lhes é mais favorável. Em nome da autonomia a senhora ministra decidiu que todas escolas vão ter o mesmo número de departamentos. São quatro. E que levam a coisas absurdas gora na avaliação.


- Quais?

- A coisas tão absurdas como um professor de espanhol ou português ir avaliar um professor de alemão porque são todos do mesmo departamento. E por aí adiante. Um de agro-pecuária ir avaliar um de matemática. É por isso que nós dizemos que este modelo de gestão não só põe em causa a autonomia como desvaloriza a componente pedagógica das escolas.


- Afinal, valoriza-se o quê?

- Na organização das escolas o primado do pedagógico prevalece sobre o administrativo. E a grande crítica que nós fazemos a este modelo de gestão é que é exactamente o contrário. O administrativo vai condicionar todas as opções pedagógicas. Tudo bem, que se mude. Mas que se saiba o que se vai mudar.


- Pelo que me está a dizer são mudanças à toa, no ar, em cima do joelho.

- Sabe o que é? Às vezes dá ideia que a senhora ministra ouve aí na rua, no cabeleireiro ou nos sítios onde vai dizerem que a Educação está muito mal. E como a Educação está muito mal, e está, é preciso fazer qualquer coisa. Não se avalia o que existe nem se faz uma coisa que corresponde ao que está mal. É preciso fazer-se qualquer coisa e faz-se.


- A ruptura com este Ministério, com esta ministra é iminente?

- É uma ruptura sobretudo por falta de diálogo.


- É tudo uma questão de diálogo?

- A senhora ministra dizia há dias na televisão, no dia da marcha, que não percebe porque é que nós dizemos que ela não quer reunir connosco porque nunca recusou uma reunião com os sindicatos quando lhe foi pedida. Eu tenho aqui ofícios dela a dizer que recusa. Claro que não queremos reunir sempre com ela. Há delegação de competências, tudo bem. Mas há momentos, politicamente, em que é necessário reunir com a ministra. Discutir a educação, o insucesso, o abandono, questões importantes.


- Isso é verdade. Mas porque é que Portugal está na cauda da Europa em todas as áreas de aprendizagem? Não é só culpa deste Governo.

- Eu acho que tem muito a ver com a situação do País. Não tem só a ver com problemas da escola.


- Não é só um problema da escola? Mas aí corre tudo bem?

- Não. Há problemas da escola e da sua organização. Há problemas de falta de resposta a certos problemas. Dou-lhe um exemplo. Porque é que o insucesso escolar não consegue baixar, e pelo contrário até aumentou um ponto no segundo ano de escolaridade? As pessoas não percebem.


- Porque é?

- Não percebem. Então baixa 20 por cento no secundário e aumenta no segundo ano de escolaridade. Isto é um problema da sociedade que a escola podia atenuar e não resolve.


- Não resolve?

- Não. O Ministério da Educação tem vindo a destruir tudo o que são respostas de apoio. Normalmente chama-se de educação especial, mas não é bem isso. Retirou pessoas de apoio e principalmente está a afunilar o conceito de necessidade educativa especial á situações de deficiência. E este conceito é amplo e abrange muitas outras situações, como o atraso mental ligeiro.


- Não acha que hoje em dia a formação dos professores é má? Porque é que não aceitam o exame de acesso á profissão?

- Essa é uma das nossas preocupações. Foi das primeiras coisas que levámos ao Ministério da Educação. Ora bem, O Ministério da Educação considera que muitas das instituições que formam professores têm fraca qualidade e depois, em vez de cair em cima dessas instituições, de as avaliar, de fiscalizar o que se lá passa e até fechá-las se for caso disso, não. Certifica-lhes os cursos, credita os cursos, financia os cursos e depois quando os jovens chegam cá fora espetam-lhes com um exame em cima para ver se podem ser professores. Isto pode acontecer aos nossos filhos.


- É um absurdo, de facto.

- É mais uma consequência do estatuto. E há instituições dessas que são de vão de escada. E há instituições dessas que permitem que os alunos acabem o curso dando erros ortográficos. Isso é que não é possível. Claro que fazer o exame é mais fácil do que enfrentar certos interesses à volta desses cursos sem qualidade.


- Concorda que se aplique o modelo de um só professor também ao segundo ciclo, como acontece agora com o primeiro?

- Isso é outro absurdo e contraria tudo o que se está a discutir por esse mundo fora. Mesmo no primeiro ciclo começa a fazer sentido que não haja um só professor. Agora querem fazer o mesmo no segundo e nós, mais uma vez, alertámos para o erro de um mesmo professor dar matemática, história, português e por aí adiante. A ministra anunciou novidades já para Setembro. Não sei quem serão os professores, porque os cursos são recentes e ninguém o acabou. Isto é um erro muito grave que vai degradar ainda mais a qualidade do ensino.


- Mas a população em geral não desgosta desta ministra e desta equipa da Educação. Porquê?

- Sabe uma coisa. Esta equipa do Ministério da Educação tem uma arte muito grande, que é a arte da propaganda. Não tenha dúvidas sobre isso. Não tem pejo nenhum em dizer coisas que não são verdade, em faltar à verdade. Que eu sou contra as aulas de substituição, contra os prolongamentos e por aí adiante.


- Por falar de propaganda. O encerramento de escolas com poucas crianças não é uma coisa positiva?

- O problema não é esse. O que é que não é positivo? É considerar que o encerramento é bom em si mesmo. O encerramento de uma escola não é uma questão administrativa. Eu não posso encerrar uma escola porque só tem sete alunos. Se calhar faz mais sentido fechar uma com vinte do que uma com sete. Se os miúdos têm de andar horas para ir à escola não faz sentido nenhum. O problema é que eles têm fechado a olho.


- Mas as câmaras estão a apoiar esse encerramento, não estão?

- Eu acho que há uma coisa que vai dar mal resultado. Prometeram às Câmaras verbas do QREN para construir centros educativos, mas puseram como condição se tivessem aprovado até Dezembro de 2007 as cartas educativas. Mas as cartas educativas só são aceites se as Câmaras fecharem as escolas com menos de sete alunos. E assim foi. E meteram as crianças até em contentores.


- Em contentores?

- Sim, em Lisboa, em Torres Vedras e em outros lados. As crianças estavam em escolas que até tinham tido obras recentes e agora estão em contentores. Dizia a senhora ministra que não percebia os protestos porque até tinham ar condicionado, eram cómodos, portanto, e era uma situação transitória.


- Em Portugal isso é perigoso.

- Posso dizer-lhe o seguinte. Estivemos a fazer contas do QREN e as verbas para a Região Centro. Há cem concelhos. Estão previstos cem milhões de euros até 2013. Estivemos a fazer contas e quando chegámos às 33 câmaras já estava a verba esgotada. Isto quer dizer que fecharam as escolas por conta. Primeiro fizeram as cartas educativas, homologadas pelo Governo, fecharam as escolas e agora quero ver como é que vão resolver o problema quando não tiverem dinheiro.


- Foi tudo feito muito à pressa?

- Tudo à pressa. Na Educação, quando nos vêm com resultados do género baixou 20 por cento o insucesso escolar isso quer dizer que os resultados são falsos.


- Os resultados demoram a aparecer?

- Infelizmente é assim. Às vezes demora uma geração para se verem resultados. E isso acontece quando se tomam medidas consolidadas. Não como tem sido feito. Eu temo que esta gente, este Governo, ande aqui a fazer uns truques para melhorar as estatísticas mas que não resolvem os problemas estruturais. Vamos ver se quando isto tudo assentar a situação não esteja ainda pior do que estava.


- Tem muitos anos de vida sindical. Esta equipa ministerial é a pior que já conheceu?

- Já conheci algumas, como sindicalista e professor. Eu não gosto de dizer que é das piores porque é sempre muito fácil nós dizermos que os que lá estão são os piores porque o que lá vai, lá vai. O que eu acho que esta equipa é das piores é do ponto de vista do relacionamento, do diálogo. Posso dizer-lhe que uma pessoa como o doutor Guilherme d’Oliveira Martins não há outra. Do ponto de vista do diálogo. Era uma pessoa que não era da área, não era da Educação, podia não perceber muito, mas tinha uma capacidade de expressão inesgotável. Tinha sempre a preocupação de argumentar e explicar as suas razões, mesmo no desacordo. Não fazia como estes.


- Estes não argumentam, não explicam os seus pontos de vista?

- Olhe. Há dias estava com o senhor secretário de Estado a falar da gestão das escolas. E dizia-lhe: o Conselho Nacional de Educação e os académicos dizem que é preciso avaliar o que existe e que esta solução não é a melhor. Porque é que insiste nesta solução? A resposta foi: bem, essa é a opinião deles, o nosso pensamento é este e é este que conta. A única resposta deles e assim.


- Sempre?

- Outro caso. A propósito das carreiras e da desvalorização dos professores disse-lhe que a Margaret Tatcher arranjou um problema para o Reino Unido. Não tem professores. As pessoas acharam que não era uma profissão atractiva e foram-se embora. Ficaram lá os medíocres que não tinham alternativa e agora andam na Índia à procura de gente. Sabe qual foi a resposta deles?


- Qual foi?

- Não há problema. Se não existirem professores portugueses o que há mais é no Brasil quem queira. Foi a resposta deles. É assim que discutem connosco. Por isso é que o relacionamento é muito mau. Porque nós podíamos discordar da Manuela Ferreira Leite, que tinha aquela postura hirta, mas era uma relação que existia e que na altura, por exemplo, havendo algumas medidas que ela nos foi anunciando que achava que deveria ou não avançar tinha a preocupação de falar connosco. Repare. Vou dar-lhe um exemplo. Uma vez este secretário de Estado da Educação, no dia de uma greve de professores, quis passar a ideia para fora de que os professores são uns malandros e uns faltosos porque tinham dado seis milhões de faltas.


- Pois foi. A velha questão do absentismo.

- Pois é. A doutora Manuela Ferreira Leite tinha feito esse estudo e um dia falou-nos disso. E fomos com ela fazer as contas, o que este não quis. Quando se fala em seis milhões de faltas pensa-se que são seis milhões de dias. Mas não é. Seis milhões de faltas são seis milhões de tempos. Ora os professores portugueses, se fizermos as contas ao grupo profissional que existe, são responsáveis por um total de mais de cem milhões de tempos por ano. Mas fiquemos pelos cem milhões para facilitar as contas. Sabe o que é que significa seis milhões de faltas? Significa que os professores têm uma taxa de assiduidade de 94 por cento, uma das mais elevadas.


- É a manipulação dos números.

- Exacto. Com o mesmo número. O senhor secretário de Estado podia ter dito, se quisesse valorizar os professores: os professores têm uma taxa de assiduidade de 94 por cento. Ou fazer o que disse: faltaram seis milhões. Aqui há uma intenção clara. Não mentiu. Usou o número para denegrir. A doutora Manuela Ferreira Leite, quando fez as contas, percebeu e não divulgou nada. Porque tinha-nos falado disso.


- O relacionamento com esta equipa é mesmo mau.

- Sabe, o problema desta equipa é que não olhou a meios para atingir os fins e os fins passaram muitas vezes por passar ideias negativas sobre os professores que não eram verdadeiras. E eu quero dizer que nunca fiz o discurso de que a nossa classe profissional é a melhor. A nossa é igual às outras. Tens bons, maus, excelentes, medíocres, tem tudo. Agora não se passe a ideia que são maus. E eles tentaram passar essa ideia.


- O Ministério reduziu o número de sindicalistas a tempo inteiro. Concordou com essa medida?
- Eu aplaudi. A Fenprof aplaudiu.

- Porque?

- Por uma razão muito simples. A taxa de sindicalização dos professores é da ordem dos 75 por cento. É talvez a mais elevada do País. E a Fenprof neste universo é uma organização que, sozinha, tem uma representatividade que é superior a todas juntas. E não sou eu que digo. Foi o Ministério que faz as contas. Dos 106 mil professores sindicalizados, no universo de 136 mil, foi essa a conta que eles fizeram, a Fenprof tinha mais de metade. E o que era estranho, porque nós não sabíamos, foi quando se descobriu que havia no País mil e quinhentos professores a tempo inteiro nos sindicatos e a Fenprof, que é a maior, tinha cerca de 10 por cento. Onde estavam os 90 por cento?


- A Fenprof não precisa de muita gente a tempo inteiro?

- Sabe que nós só temos de ter para trabalhar em qualquer coisa os que precisamos. Porque quando não é assim até podemos tropeçar uns nos outros e depois começam uns a não fazer nada. E, por isso, quando o Ministério disse que ia reduzir de 1500 para 500 a Fenprof aplaudiu. Muito bem. Nós não vamos pôr nem mais nem menos. E ficámos com os mesmos e mesmo assim passámos só para 30 por cento do universo. O Ministério depois disse que ia passar para 300. Nós dissemos que estava bem.


- Também concordaram?

- Sim. Mas dissemos o seguinte: vamos medir a representatividade e não é 300 a medir tudo irmãmente. Vamos ver o que cada um vale e cada um tem em função do que vale. E essa contagem foi feita e a Fenprof manteve rigorosamente o que tinha. Até agora a resolução tem ido no sentido do que nós chamámos de moralização.


- Por isso aplaudiram.

- Estivemos de acordo, participámos e todas essas medidas vieram ao encontro da indispensável e inadiável moralização da questão. O problema é que a partir daqui, e como o Ministério da Educação não conseguiu atingir quem queria, que é a Fenprof, as medidas que começam a ser anunciadas já têm não um carácter de moralização mas um carácter de perseguição e liquidação. E isso não concordamos. Nós discordamos disso.


- Que medidas são essas?

- Eles têm uma proposta de lei que fundamentalmente penaliza as grandes organizações. Está na Assembleia da República e diz que as organizações a partir dos 10 mil associados contam todas por igual. Se tiverem 20 mil, como o Sindicato de Professores da Grande Lisboa, é como se tivessem 10 mil porque a partir dai eles param os plafonds. E isto é feito para quem? Não é feito para quem tem 4 mil. E isso não vamos aceitar.


-O Mário Nogueira há 18 anos que é dirigente sindical.

- Eleito pelos professores


- Sim, claro.

- E há um ano secretário-geral da Fenprof.


- Não acha que os dirigentes, como o senhor, deveriam ter uma reciclagem nas escolas? Irem às escolas, ver a realidade?

- Eu, pessoalmente, às vezes faz-me falta.


- Ir à escola?

- Sim. Exactamente. E quero dizer-lhe até que recusei, para poder estar numa actividade que eu acho muito importante, por duas vezes, dar aulas no ensino superior. Sou efectivo numa escola em Coimbra encostada à minha casa, vou a pé. Em Coimbra. Não me pagam nada para estar aqui. E até recuso que me arranjem um apartamento, por pequeno que fosse, para nunca me conseguir instalar. Prefiro andar com uma mala atrás que é para chegar à sexta-feira e ficar todo contente por ir ao fim do dia na Segunda Circular auto-estrada acima. Agora, de facto, há um grau de exigência que é muito complicado.


- Ser dirigente?

- É assim. O Ministério da Educação marca reuniões umas atrás das outras. Marca porque é obrigado por lei. Se nós tivéssemos uma postura de ir lá e dizer não era fácil. Podia estar na escola e vinha cá ao fim da tarde e ia-me embora. Mas a nossa postura é diferente. Reunimos e trabalhamos as propostas. Eu, esta semana, tive reuniões do Conselho Nacional da Fenprof segunda e terça, do Secretariado na quarta, da Plataforma Sindical na quinta, sexta tive de preparar a reunião com o Ministério de manhã e à tarde lá fui à 5 de Outubro. Que aulas é que poderia dar?


- Nenhuma. É um ritmo infernal.

- É. O problema aqui é que há hoje um conjunto de exigências que nos colocam que dar aulas é uma impossibilidade. Mas quando é possível estamos na escola. Olhe, o presidente do Sindicato da Grande Lisboa, António Avelãs, tem uma componente lectiva, embora reduzida. Onde é possível está-se na escola. Como no Sindicato da Grande Lisboa, em que os principais dirigentes têm todos uma turma na escola. Há situações em que não é possível.


- Mas sente a falta da escola?

- Sinto. Quantas vezes, particularmente nos momentos mais complicados em que uma pessoa anda mais cansada, mais desanimada, penso na escola. Mas veja. O meu sindicato vai ter eleições em Maio e eu tentava libertar-me das funções de coordenador. Foi uma discussão danada e pronto lá vou outra vez ser coordenador. Ao mesmo tempo é o reconhecimento das pessoas pelo nosso trabalho, que votam em nós. E temos elevadas participações nas eleições e congressos muito animados, como o último da Fenprof. Nós não estamos aqui por nomeação da senhora ministra ou seja de quem for. Estamos aqui por escolha daqueles que são muitos, cerca de 70 mil, que são os sindicalizados.


- Admite uma greve de professores no final do ano?

- É um cenário que nós não pomos de lado. Tem de estar sempre em cima da mesa. Se as coisas não se resolverem é uma forma de luta, uma luta grave, forte. Não a descartamos. Eu costumo dizer que para um dirigente sindical a melhor luta é aquela que não é preciso fazer. Porque é aquela que até ao momento da sua concretização os problemas que estavam por detrás da marcação foram resolvidos. Às vezes não é fácil. Nós temos uma forma de luta prevista, temos um processo de mobilização para ela, para ganhar força e depois de as pessoas estarem embaladas nós temos de parar. É um desafio extremamente exigente. Mas repito. A melhor forma de luta é aquela que não se faz porque é sinal que a coisa se resolveu. Porque a luta é instrumental. Não é um objectivo. Não andamos aqui para fazer lutas. Andamos aqui para resolver os problemas. Agora, quando os problemas não se desbloqueiam só resta a luta.


- Como última alternativa?

- Claro. É o último poder que temos. Andamos em negociação com o Governo, não se chega a acordo e o Governo põe cá fora o decreto-lei contra nós. Nós, como não podemos pôr cá fora decretos-leis só temos um poder. Falamos com as pessoas, juntamos aí 100 mil e agora vá, agora é sua vez de deitar cá para fora.


- Quer dizer que a greve é possível?

- Vai depender. Eu acredito que o senhor primeiro-ministro tenha alguma dificuldade do ponto de vista político em substituir a equipa, ainda por cima tão pouco tempo depois de uma remodelação, mas também acredito que o senhor primeiro-ministro queira ganhar as eleições em 2009. E vai ter uma vida muito complicada tendo no ano que antecede as eleições este problema dos professores na rua. Penso, se quer que lhe diga, que esta situação é mais complicada para o Governo do que para nós. Nós tivemos uma prova há uma semana de que a contestação não é uma invenção dos sindicatos, como dizia a senhora ministra, e de que não são os sindicatos a dizer uma coisa e os professores outra, como disse o primeiro-ministro ao Presidente da República no dia 5 de Outubro.


- A bola está, portanto, no lado do Governo?

- Sim, o Ministério da Educação e o Governo é que têm um problema para resolver que é acabar com esta situação de grande crise. Eu estou convencido, sinceramente, que ou o Ministério da Educação e o Governo têm capacidade de ir ao encontro, neste momento, daquilo que os professores querem ou vai ser pior. E nós não estamos a exigir o Céu. Para a semana temos de rever o Estatuto da Carreira Docente. Suspendam a avaliação e depois para o ano vamos fazer essa revisão do estatuto. Queremos fazer as coisas com tempo. Não estamos a exigir o Céu. Agora estamos a dizer se a ministra da Educação mantém a inflexibilidade que manteve até agora...


- Vão para a greve.

- Não sei se vai haver uma greve. Se isto se mantiver e a ministra se mantiver se calhar vai haver. Se isto não se resolver agora e a equipa for substituída se calhar teremos uma situação nova.


- A bola está mesmo do lado do Governo.

- Completamente. Quem tem agora de dizer qualquer coisa é o Governo. Há quem diga que os sindicatos ficaram agora com a responsabilidade porque puseram 100 mil na rua. Não. Há uma semana tivemos 100 mil, uma semana depois o Ministério da Educação tem de dizer o que é que tem para responder aos 100 mil. Acredito que seria um sinal de fragilidade para o primeiro-ministro mexer na equipa agora, mas digo-lhe também que se não o fizer vai ter uma vida difícil num ano antes das eleições. Penso que nestas coisas da política a teimosia às vezes é muito má.


- E Sócrates é teimoso.

- O senhor primeiro-ministro é um bocadinho teimoso, nós todos sabemos isso, mas como acredito que tenha conselheiros, mesmo que ele não consiga descobrir isso, alguém lhe dirá.


PERFIL

Mário Nogueira nasceu em Tomar em 1958. Casado, com um filho médico, Vasco, vive em Coimbra, fez o Magistério do Ensino Primário em 1978 e licenciou-se em Educação pela Escola Superior de Educação de Coimbra em 2001. É professor da EB1 de Santa Apolónia, em Coimbra. É dirigente sindical há 18 anos e começou esta actividade no Sindicato dos Professores da Região Centro, de que foi presidente durante largos anos.

Militante do Partido Comunista Português e adepto ferrenho do Sporting, foi eleito secretário-geral da Federação Nacional dos Professores em 2007 e continua a ser o coordenador do Sindicato de Professores da Região Centro. Nas próximas eleições deste sindicato vai de novo concorrer ao cargo de coordenador.

António Ribeiro Ferreira

sábado, 15 de março de 2008

ESTÁ SUSPENSO!!!

http://ww1.rtp.pt/noticias/index.php?headline=98&visual=25&article=332913&tema=27

"Ministra não pode persistir num erro que já reconheceu"

Só mediante este tipo de "desobediência" é que levamos o barco a bom porto! FORÇA!

Resolução do Departamento de Humanidades da Escola Secundária de Barcelos 12 de Março de 2008

O Departamento de Humanidades, na sua reunião ordinária de 12 de Março, após discussão referente ao processo de avaliação de Desempenho dos Professores, redigiu o seguinte documento, aprovado por unanimidade:

- Atendendo a que as recomendações sobre a elaboração e aprovação, pelos Conselhos Pedagógicos, de instrumentos de registo normalizados, previstos no Decreto de Avaliação do Desempenho, emanadas pela Senhora Presidente do Conselho Científico de Avaliação dos Professores, se encontram, neste momento, suspensos por providência cautelar intentada, a 8.Fevereiro.2008, pelo Sindicato dos Professores do Norte,

- Considerando que, até ao momento, não há notícia de provimento a eventuais recursos interpostos pelo ME,

- Desconhecendo qualquer documento legal que legitime a constituição de apenas quatro departamentos curriculares para efeitos de avaliação,

- Divergindo profundamente dos critérios que regulamentaram o primeiro concurso de acesso a professor titular, contemplando essencialmente os cargos ocupados nos últimos sete anos, que deixaram de fora professores com um vasto currículo e trabalho produzido na escola ao longo de muitos anos de carreira,

- Tendo em conta que alguns professores deste departamento estão na estranha situação de uma liderança bicéfala, ao pertencerem, simultaneamente, a este departamento e a um outro para efeitos de avaliação, cujo representante legítimo não tem assento legal no Conselho Pedagógico,

- Afirmando que o processo de avaliação, pelo excesso de procedimentos burocráticos, pelo momento em que foi instituído, pelo não conhecimento atempado de todos os requisitos legais e procedimentais indispensáveis para o concretizar, tornam a avaliação inexequível,

- Acentuando a inexistência de preparação adequada dos professores avaliadores para garantirem uma avaliação justa, objectiva e tecnicamente rigorosa,

- Sublinhando que aos professores avaliadores é pedido que avaliem, em muitos casos, dezenas de professores, sem que para o efeito haja disponibilidade de horário ou concessão de horas em número suficiente,

Consideram ainda

- Que o DR 2/2008 regulamenta um Estatuto da Carreira Docente no qual os professores não se revêem, ao fragmentar a carreira única, de um modo artificial, em duas carreiras,

- Que não há mérito nem excelência suficiente que permita ao docente chegar ao topo da carreira, quando ela está praticamente vedada a dois terços dos professores, traduzindo a perspectiva de futuro profissional numa ilusão,

- Que a exigência de 50% da formação na área disciplinar, pela ausência de oferta no Centros de Formação, obriga os professores a pagarem do seu bolso essa formação,

- Que o referido Estatuto pune qualquer excelência, bem como a dignidade das pessoas, por faltas a funerais de familiares, idas a tribunal, reuniões escolares dos filhos e várias outras situações,

- Que pune os professores quando os alunos ou os pais dos alunos decidem, bem ou mal, que chegou a hora de abandonar a escola,

- Que transforma a avaliação numa competição excessiva pelas quotas e depois exige que os docentes sejam avaliados pelo trabalho cooperativo,

- Que avalia os professores pelos resultados dos alunos, criando uma situação de perversidade e de uma previsível mentira no sucesso educativo num espaço, que é a escola, que deve ser um espaço de verdade, quando

a) é de senso comum o conhecimento que os resultados dos alunos avaliam os alunos, não os professores,

b) é impossível aferir com rigor e justiça o contributo do professor na classificação final do aluno,

c) é arbitrário e injusto fazer essa aferição pelos resultados dos anos anteriores ou pelo progresso dos alunos, responsabilizando o professor por aquilo de que não pode ser responsabilizado,

d) não o é menos, fazendo-o pelo resultados da avaliação externa, dada a discrepância de aproveitamento que há entre os diversos alunos,

e) é perverso porque pode e irá, seguramente, criar situações de classificações inflacionadas,

f) é ilegal porque o docente não pode ser responsabilizado individualmente pela classificação, caso assim fosse desrespeitaria o Despacho Normativo 1 de 2005 que diz: “Artigo 31 - A decisão quanto à avaliação final do aluno é da competência: b) Do conselho de turma sob proposta do(s) professor(es) de cada disciplinar/área curricular não disciplinar, nos 2ºe 3º ciclos.”; bem como o Despacho Normativo 10/2004, de 2 de Março, que regula a avaliação no ensino secundário, “capítulo II, nº 3.5 – A decisão final quanto à classificação a atribuir é da competência do Conselho de Turma, que, para o efeito, aprecia a proposta apresentada por cada professor, as informações justificativas da mesma e a situação global do aluno.”

Delibera

Não participar na realização dos instrumentos de registos normalizados por entender, pelo que foi dito antes, não estarem reunidas as condições mínimas para a execução de uma avaliação justa e dignificadora do ofício docente,

Exigir que o Conselho Pedagógico pondere a suspensão de todo o processo de avaliação até estarem reunidas essas condições,

Propor, aos órgãos competentes da escola, a convocação de uma reunião geral de professores para discutir esta questão,

Arrogar-se o direito de divulgar publicamente esta resolução para que outras escolas e as suas instâncias decisórias assumam também a responsabilidade de tomar em suas mãos um processo que, como diz povo, se “nasce torto tarde ou nunca se endireita”.

Em nome dos professores que integram este Departamento,

A coordenadora,

Fátima Inácio Gomes.

Retratação de Emídio Rangel

2008-03-15 - 09:00:00
Coisas do circo

Reforma não pode parar

Neste Governo já muitas coisas foram alteradas no ensino, sempre com a oposição dos sindicatos. Mas a procissão ainda vai no adro.



Neste Governo já muitas coisas foram alteradas no ensino, sempre com a oposição dos sindicatos. Mas a procissão ainda vai no adro.

A avaliação do desempenho não está adiada, suspensa e não será adiada nem suspensa.” É assim, de uma forma categórica, que Maria de Lurdes Rodrigues respondeu aos sindicatos depois da manifestação de sábado passado em Lisboa. Era isto que os pais esperavam.

Era isto que os portugueses desejavam. Firmeza sem arrogância, porque o que está em causa é a reforma mais importante de que o País necessita para olhar para o futuro. O ensino em Portugal degradou-se a um ponto tal que, obviamente, a reforma só peca por ser tardia. Somos o último país da Europa quando se analisa comparativamente o que oferecem as escolas portuguesas e as dos outros parceiros da Comunidade.

O grau de indisciplina, de impreparação, de anacronismo do ensino em Portugal tem-se prolongado por décadas sem que nenhum Governo tenha sido capaz de lhe dar outro rumo. Os sindicatos dos professores tornaram-se poderosas forças de bloqueio que nenhum ministro conseguiu vencer ou cativar. Ao mínimo sinal de mudança erguem-se e param tudo. É por este prisma que tem de ser vista a determinação de Maria de Lurdes Rodrigues.

Neste Governo já muitas coisas foram alteradas no complexo sistema de ensino, sempre com a oposição dos sindicatos. Mas a procissão ainda vai no adro. Se Portugal pretende não crucificar mais gerações ao insucesso precisa de prosseguir esta reforma. Recordo-me com bastante crueza do grau de estupefacção em que ficava quando me punha a ver testes ou trabalhos dos alunos da faculdade e em cada linha tinha quatro ou cinco erros de português.

Como é possível que alunos universitários não saibam a sua própria língua? Às vezes não falam nem escrevem correctamente o português. Não sabem português nem História de Portugal (conhecimentos gerais), nem Geografia, etc, etc Interrogo-me, com surpresa, como é possível que os professores e os sindicatos se manifestem violentamente contra as mudanças para impor um sistema de ensino exigente e qualificado em Portugal.

Os jovens de hoje vão competir, em Portugal e nos restantes países da Europa, com outros muito mais bem preparados de outras nacionalidades. Fico sem perceber porque é que os professores não aceitam um director para dirigir cada escola. Não compreendo que mal vem ao Mundo se os professores forem avaliados. Professores e ministra querem coisas radicalmente diferentes? Não posso acreditar

P.S. – A minha crónica da semana passada causou muita celeuma entre os professores. Quero deixar claro que jamais quis ofender os professores, em sentido geral. Conheço bons e nobres professores que muito respeito. Estou contra os medíocres e os que querem a continuidade da mediocridade. Pretendo somente que a reforma do ensino não pare, para bem de Portugal.

Emídio Rangel

http://www.correiodamanha.pt/noticia.asp?id=281723&idselect=93&idCanal=93&p=200

Perto de 200 professores estiveram no Porto contra as políticas da ministra da Educação

Docentes desmobilizaram ao final da tarde
15.03.2008 - 18h17 Lusa, PÚBLICO

Perto de 200 professores manifestaram-se hoje em silêncio no Jardim do Marquês, no Porto, contra a política educativa do Governo. A poucos metros do local do protesto, a ministra da tutela era recebida com palavras de apoio no comício do PS, que esta tarde faz o balanço de três anos de governação.

A meio da tarde, os docentes em protesto eram pouco mais de 50, mas, até às 17h00, altura em que desmobilizaram, foram contados perto de 200 professores no Jardim do Marquês, local que não abandonaram durante toda a manifestação.

Muitos professores recusaram-se a falar aos jornalistas receando "sofrer represálias". Adriano Pinto, do Marco de Canavezes, trazia ao peito um papel com a frase "professor humilhado", tendo justificado aos jornalistas que "o que Ministério da Educação tem feito é nesse sentido". "Os professores são os bodes expiatórios da incompetência do Governo", justificou.

Adriano Pinto disse também "que todos os momentos são adequados para uma manifestação, desde que saibamos ocupar o nosso lugar e não se responda a provocações".

No exterior do Pavilhão do Académico, o espaço foi de protesto, mas no interior do recinto a ministra da Educação, a principal visada pela manifestação de hoje, foi recebida com aplausos e gritos de encorajamento por parte de centenas de militantes e simpatizantes socialistas.

Os professores foram convocados para a manifestação através de SMS. Na mensagem de telemóvel enviada aos docentes podia ler-se: "Sócrates no Porto a 15 de Março, 15h30. Convocam-se todos os professores para estarem presentes à porta do pavilhão do Académico todos de negro e em silêncio!!! Os cartazes dirão o que se tiver a dizer. Início da concentração no Marquês às 14".

A manifestação não contou, no entanto, com o apoio das estruturas sindicais, com o Sindicato dos Professores do Norte (afecto à Fenprof) a declarar, em comunicado, que "nada tem a ver com os promotores" das mensagens por SMS. Na mesma nota, o sindicato acrescenta que "qualquer acto que ponha em causa o direito de reunião e de manifestação de qualquer partido político, movimento ou sindicato é uma atitude antidemocrática que merece a mais profunda condenação".

Ministério admite avaliação diferente para cada professor


José António Domingues











Jorge Pedreira prefere que exista alguma a nenhuma avaliação


Alexandra Inácio

Os sete mil professores que têm de ser classificados este ano lectivo podem negociar o seu modelo de avaliação com os Conselhos Executivos das suas escolas. O Ministério da Educação reforça a autonomia dos estabelecimentos e não vai dar indicações sobre um regime mínimo de análise comum. O secretário de Estado Adjunto da Educação reuniu-se, ontem, com a Fenprof e FNE. As negociações falharam com ambas as federações por culpa exclusiva dos sindicatos, afirmou Jorge Pedreira, considerando que "o Ministério fez tudo o que pode".

Cada escola, consoante as condições de que dispõe para aplicar o decreto regulamentar nº2/2008, decidirá se avalia os professores de acordo com todos os parâmetros definidos na lei ou só alguns, como as fichas de auto-avaliação e "parâmetros de fácil registo" como a assiduidade. Os sindicatos recusaram a multiplicidade de modelos.

Confrontado com a possibilidade de criação de desigualdades pelo facto de um professor ser sujeito a uma avaliação exaustiva e outro não, o secretário de Estado limitou-se a responder que a "desigualdade é o risco que existe de se dar a autonomia às escolas". No entanto, sublinhou, o Governo não deseja que docentes da mesma escola e nas mesmas condições (contratados ou em vias de progressão) sejam sujeitos a parâmetros distintos. Depois, argumentou, a possibilidade de acordos individuais de modelos pretende, precisamente, "acautelar os interesses e objectivos de cada docente avaliado".

Mário Nogueira, secretário-geral da Fenprof, acusou o Ministério de instalar "a balbúrdia" nas escolas e avisou de imediato Jorge Pedreira "se às escolas chegarem orientações diferentes das previstas na lei, isso será uma ilegalidade e a Fenprof avançará para os tribunais".

Para a FNE, "é inaceitável" existirem regimes diferentes. Após quase quatro horas de reuniões, Jorge Pedreira acusou a Fenprof de se apresentar com um "ultimato" (a exigência de suspensão do processo até ao próximo ano lectivo) e a FNE de "não respeitar a autonomia das escolas".

Greve ainda é hipótese

Sem parâmetros mínimos comuns definidos pela tutela, Jorge Pedreira considera que os modelos simplificados vão "reflectir a apreciação possível dos avaliadores. É melhor que haja uma avaliação, ainda que simplificada, do que não exista nada", defendeu o secretário de Estado.

Só em situações limite, em que o professor avaliado não chegue a acordo com o Conselho Executivo é que a escola terá de informar o Ministério para que seja a tutela a resolver a situação.

No próximo ano lectivo todos os professores serão avaliados pelo modelo integral, definido na lei. Inclusivamente os sete mil classificados até às férias de Verão.

Mário Nogueira e a delegação da Fenprof demoraram 40 minutos no Ministério. Para o secretário-geral da Federação a reunião ficou "inquinada" logo no início. Na terça-feira, o Governo tinha manifestado abertura para só avaliar este ano lectivo os professores contratados. Ontem, Jorge Pedreira apresentou-se "amarrado" ao compromisso que a ministra acordou com o Conselho de Escolas, considerou Nogueira.

"Neste momento, o ME tem duas saídas ou tem capacidade para aplicar o regime a todas as escolas ou não tem e então terá de suspender o processo este ano. Os professores não têm culpa da incompetência da equipa ministerial", argumentou, à saída do encontro aos jornalistas.

A possibilidade de convocação de uma greve aos exames, por exemplo, ainda não foi equacionada pela Plataforma de sindicatos.

Departamento de Línguas Estrangeiras da Escola Secundária de Barcelos

Os professores do Departamento de Línguas Estrangeiras da Escola Secundária de Barcelos, na sua reunião ordinária de 12 de Março, reflectiram, mais uma vez, sobre o processo de avaliação do desempenho docente determinado pelo Decreto Regulamentar 2/2008 de 10 de Janeiro e redigiram o seguinte documento, que foi aprovado por unanimidade.

Atendendo a que:

- a fractura da carreira docente em professores titulares e não titulares se operou com base num processo arbitrário, gerando injustiças inqualificáveis, dado que os parâmetros de acesso à categoria de titular se circunscreveram, aleatória e arbitrariamente, aos últimos sete anos, deixando infamemente de fora carreiras e dedicações de vidas inteiras entregues à profissão;

- por via de tão injusto concurso, não se pode admitir, sem ofensa para todos, que seguiram em frente só os melhores, e que ficaram para trás os que eram piores;

- esse concurso terá repercussões na aplicação do assim chamado modelo de avaliação, já que, em princípio, quem por essa via acedeu a titular será passível de ser nomeado coordenador e, logo, avaliador;

- os professores avaliadores não possuem, na maioria dos casos, formação especializada que garanta uma avaliação justa, objectiva e tecnicamente rigorosa;

- os professores avaliadores terão que avaliar, em muitos casos, um elevado número de professores, sem que para o efeito haja disponibilidade de horário ou concessão de horas em número suficiente;

- o modelo de avaliação é tecnicamente medíocre e demasiado burocrático, obrigando os professores à elaboração e preenchimento de um número desmesurado de fichas que não garantem, por si só, a tão proclamada promoção da qualidade das práticas de ensino;

- o modelo de avaliação é irreflectido e insensato nos prazos que impõe e na forma leviana e precipitada como foi sendo imposto e regulamentado;

- o modelo de avaliação contém critérios de elevada carga subjectiva, incluindo, entre outros, itens tais como "disponibilidades", "empenhamentos", ou a "criação de climas favoráveis", tornando difícil a sua avaliação e classificação;

- é o próprio Ministério da Educação que apresenta um conjunto de fichas que não obedece aos princípios de clareza, transparência, objectividade que o próprio divulgou nas "recomendações" para a elaboração dos instrumentos normalizados pelos Conselhos Pedagógicos;

- os itens, nas referidas fichas, considerados no âmbito dos diversos parâmetros, denotam várias anomalias, designadamente os associados aos critérios da sua própria construção (critério comportamental; objectividade e desejabilidade; simplicidade; clareza; relevância; precisão; modalidade; tipicidades; amplitude e equilíbrio), razões que reforçam a necessidade de serem testados, de serem definidas, com precisão, as amostras e a população alvo e, por fim, de serem apreciados os resultados do teste;

- não testar as fichas antes da sua aplicação generalizada significaria uma tremenda irresponsabilidade perante as escolas e (mais) um profundo desrespeito pelos professores;

- o Conselho Executivo e os Coordenadores de Departamento foram democraticamente eleitos para exercer as funções então definidas para esses órgãos e não para, a meio do ano lectivo, assumirem outras para as quais não foram legitimamente eleitos,

Considerando que:

- um modelo de avaliação de desempenho docente deverá dignificar a profissão e não denegri-la como é o caso do modelo proposto pelo ME;

- a avaliação entre pares, para efeitos de classificação, não é aceitável, dado que irá criar divisões e conflitos nas escolas;

- a observação de aulas não deverá constar do processo de avaliação/classificação de desempenho dos professores;

- a avaliação não deverá acontecer de dois em dois anos, dado que, com essa periodicidade, as escolas serão “sufocadas” devido à imensa carga burocrática que lhe está associada;

- é impossível aferir com rigor e justiça o contributo do professor na classificação final do aluno e que, como tal, os dados sobre a progressão dos alunos e as taxas de abandono escolar não devem ser tidos em conta no processo de avaliação docente;

- avaliar os professores pelos resultados dos alunos, dá origem a uma situação de perversidade e de uma previsível mentira no sucesso educativo num espaço, que é a escola, que deve ser um espaço de verdade, quando

  1. é de senso comum o conhecimento que os resultados dos alunos avaliam os alunos, não os professores,
  2. é impossível aferir com rigor e justiça o contributo do professor na classificação final do aluno,
  3. é arbitrário e injusto fazer essa aferição pelos resultados dos anos anteriores ou pelo progresso dos alunos, responsabilizando o professor por aquilo de que não pode ser responsabilizado,
  4. não o é menos, fazendo-o pelo resultados da avaliação externa, dada a discrepância de aproveitamento que há entre os diversos alunos,
  5. é perverso porque pode e irá, seguramente, criar situações de classificações inflacionadas,
  6. é ilegal porque o docente não pode ser responsabilizado individualmente pela classificação, caso assim fosse desrespeitaria o Despacho Normativo 1 de 2005 que diz: “Artigo 31 - A decisão quanto à avaliação final do aluno é da competência: b) Do conselho de turma sob proposta do(s) professor(es) de cada disciplinar/área curricular não disciplinar, nos 2ºe 3º ciclos."; bem como o Despacho Normativo 10/2004, de 2 de Março, que regula a avaliação no ensino secundário, “capítulo II, nº 3.5 – A decisão final quanto à classificação a atribuir é da competência do Conselho de Turma, que, para o efeito, aprecia a proposta apresentada por cada professor, as informações justificativas da mesma e a situação global do aluno.”

- é absolutamente necessário trabalhar numa proposta que possa constituir-se como uma alternativa séria, justa, rigorosa e tecnicamente exequível, para ser introduzida calmamente, de modo a ser assimilada e aplicada com serenidade e sensatez;

Mais sublinham que:

- as recomendações sobre a elaboração e aprovação, pelos Conselhos Pedagógicos, de instrumentos de registo normalizados, previstos no referido decreto, emanadas pela Senhora Presidente do Conselho Científico de Avaliação dos Professores, se encontram, neste momento, suspensos por providência cautelar intentada, a 8 de Fevereiro de 2008, pelo Sindicato dos Professores do Norte;

- até ao momento, não há notícia de provimento a eventuais recursos interpostos pelo ME;

- os partidos com assento parlamentar são unânimes em considerar que o modelo de avaliação de desempenho docente deve ser novamente analisado, discutido e experimentado;

- a Assembleia da República vai voltar a debater a avaliação dos professores, no dia 26 deste mês, a propósito de projectos de partidos com assento parlamentar que pedem ao Governo a suspensão do processo;

- o Secretário de Estado Jorge Pedreira, após a reunião de ontem (11 de Março), com os sindicatos, admitiu alguma abertura para voltar a negociar a avaliação de desempenho dos docentes,

Deliberaram o seguinte:

- não participar na realização dos instrumentos de registos normalizados por entender, pelo que foi dito antes, não estarem reunidas as condições mínimas para a execução de uma avaliação justa e dignificadora do ofício docente;

- exigir que, por uma questão de dignidade e de solidariedade profissional, o Conselho Pedagógico, pondere suspender, de imediato, toda e qualquer iniciativa relacionada com este modelo de avaliação;

- arrogar-se o direito de divulgar publicamente esta resolução para que outras escolas e as suas instâncias decisórias assumam também a responsabilidade de tomar em suas mãos um processo que, por evidenciar graves lacunas, irregularidades, iniquidades e, ainda, por ser profundamente dissonante de práticas avaliativas de qualidade, necessita de urgente revisão.

Dois vice-presidentes de escola de Leiria demitem-se devido a ficha de avaliação

14.03.2008 - 12h39 Lusa
Dois vice-presidentes do Conselho Executivo do Agrupamento de Escolas Correia Mateus, em Leiria, demitiram-se ontem depois da polémica relativa a uma grelha de avaliação de docentes, disse hoje fonte escolar.

À demissão destes docentes, soma-se a de uma outra vice-presidente, pelo que já há falta de quórum no Conselho Executivo para que este permaneça em funções.

Dos quatro elementos do Conselho Executivo, apenas a presidente, Esperança Barcelos, permanece em funções, uma situação que deverá ficar resolvida durante a próxima semana, com a nomeação de uma comissão provisória.

De acordo com a mesma fonte, foi agendada para segunda-feira uma assembleia de escola que deverá ratificar os pedidos de demissão entregues ontem e ordenar a eleição de novos órgãos.

De acordo com um dos docentes do estabelecimento, esta decisão resulta da "quebra de confiança" que o processo de avaliação gerou no seio do Conselho Executivo.

A polémica teve lugar depois de a presidente do Conselho Executivo ter apresentado uma ficha de avaliação de docentes que tinha um item em que os professores eram avaliados pela forma como verbalizavam a sua satisfação ou insatisfação em relação ao modelo de ensino.

Este documento foi denunciado pelo dirigente do Bloco de Esquerda Francisco Louçã, no debate com José Sócrates, no Parlamento, e foi alvo de censura até da própria ministra da educação.

Após a polémica gerada, Esperança Barcelos decidiu retirar a ficha polémica para evitar "mais questões" e na última reunião do conselho pedagógico, quarta-feira, foi discutida a avaliação mas não foi apresentado qualquer documento alternativo.

Na semana passada, uma das vice-presidentes do agrupamento apresentou a demissão do cargo devido a esta questão.

Na carta de demissão, Sandra Campos demarcou-se da polémica e garantiu que não foi ouvida na "concepção, elaboração e difusão das referidas grelhas", remetendo a responsabilidade para a presidente do conselho executivo e do conselho pedagógico.

Hoje a Agência Lusa tentou obter um comentário junto da ainda presidente do Conselho Executivo, mas, segundo fonte do estabelecimento, Esperança Barcelos não se encontra na escola durante todo o dia.

Proposta Do Conselho De Escolas na reunião com o ME

AVALIAÇÃO DO DESEMPENHO DO PESSOAL DOCENTE
DOCUMENTO DE TRABALHO APRESENTADO À SENHORA MINISTRA DA EDUCAÇÃO
.
O Conselho das Escolas, no âmbito das suas competências, tem vindo a desenvolver, em sede própria, um trabalho sistemático de análise e acompanhamento do processo de avaliação do desempenho do pessoal docente, tendo produzido, ao longo do tempo, um conjunto de orientações tendentes à criação de condições que possibilitassem a implementação do processo de modo a que o mesmo pudesse ter sido apropriado por todos.

É neste sentido e com esta nobre finalidade que o Conselho das Escolas vem apresentar a Sua Excelência, a Ministra da Educação, a presente proposta.

PRESSUPOSTOS:

1. A importância de uma efectiva prática de avaliação do desempenho no sentido de consolidar a credibilidade e qualidade do exercício da função docente e promover o desenvolvimento profissional orientado para a melhoria e consolidação da qualidade da prestação do serviço público de educação pelas escolas/agrupamentos.

2. Salvaguardar o direito que os docentes têm a que lhes seja feita uma avaliação justa, contextualizada à realidade organizacional de cada escola/agrupamento, e simultaneamente, que respeite os princípios estruturantes consagrados no espírito do novo modelo de avaliação, importando, por isso, encontrar uma solução que se mostre ajustada ao bom cumprimento do processo de avaliação e à sua efectiva concretização, salvaguardando-se, deste modo, o tempo necessário para o bom planeamento do trabalho das escolas/agrupamentos.

IDEIA-CHAVE:

O modelo é tecnicamente exigente. A sua eficácia depende de TEMPO, PREPARAÇÃO e FORMAÇÃO prévios.

OPERACIONALIZAÇÃO DO MODELO

1. Possibilitar às escolas/agrupamentos o desenvolvimento do processo de avaliação simplificado no ano lectivo de 2007/2008, num quadro de autonomia próprio.

2. Publicação urgente da legislação complementar indispensável ao desenvolvimento do processo de avaliação no ano lectivo de 2008/2009, ao abrigo do Decreto Regulamentar nº 2/2008, de 10 de Janeiro.

3. Aplicação flexível do modelo, com garantia de que em 31 de Dezembro de 2009 todos os docentes estejam avaliados, dentro de um quadro de autonomia próprio.

4. Garantia por parte do Ministério da Educação de apoio ao desenvolvimento do processo, nas situações em que as escolas/agrupamentos o solicitem.

5. Garantia da formação dos avaliadores, em articulação com as instituições reconhecidas para o efeito, designadamente os Centros de Formação de Associação de Escolas, de modo a assegurar o desempenho das suas funções.

6. Criação de condições para o desempenho da função de avaliador, designadamente a atribuição de crédito horário.

O presente documento foi aprovado, por maioria, em reunião plenária do Conselho das Escolas de 12 de Março de 2008.

O Presidente do Conselho das Escolas

(Álvaro Almeida dos Santos)

sexta-feira, 14 de março de 2008

Carta de agradecimento de uma Encarregada de Educação

Recebido por e-mail:


CARTA DE AGRADECIMENTO

Logo depois de ter lido aqueles documentos sobre a avaliação dos professores, pensei como lhe deveria agradecer, Srª Ministra. Afinal, aquelas horas passadas diariamente junto do meu filho a verificar se os cadernos e as fichas estavam bem organizados, a preparar a mochila e as matérias a estudar para o dia seguinte, a folhear a caderneta escolar, a analisar e a assinar os trabalhos e os testes realizados nas muitas disciplinas, a curar a inflamação de uma garganta dorida pela voz de comando "Vai estudar!" ou pela frase insistentemente repetida, de 2ª a 6ª feira:"DESPACHA-TE! AINDA CHEGAS ATRASADO!" ou o incómodo e o tempo perdido para o levar diariamente à Escola, percorrendo, mais cedo do que seria necessário, um caminho contrário àquele que me conduziria ao meu emprego, tinham finalmente, os seus dias contados. Doravante, essa responsabilidade passaria para a Escola e, individualmente, para cada um dos seus professores. Finalmente, poderei ir ao cinema, dar dois dedos de conversa no Café do Sr. Artur, trocar umas receitinhas com a minha vizinha (está entrevadinha, coitadinha!) ou acomodar-me deliciosamente no sofá da sala a ver a minha telenovela brasileira preferida.

O rapaz ainda me alertou para os efeitos das faltas o conduzirem à realização de uma prova de recuperação. Fiz contas e encolhi os ombros - poupo gasóleo e muitos minutos de caminho, de tráfego e de ajuntamentos. Afinal, ele até é esperto e, se calhar, na internet, encontra alguns trabalhos ou testes já feitos… Sempre pode fazer "copy – paste"… Efectivamente, as provas de recuperação parecem-me a melhor solução para acabar com a minha asfixia matinal e vespertina. Ontem, a minha vizinha da frente, que tem dois ganapos na escola do meu, disse-me que, se ele continuar a faltar, o vêm buscar a casa, e que, no próximo ano lectivo, os professores vão tomar conta deles depois das aulas.

Oiro sobre azul. Obrigada, Srª Ministra. A Senhora é que percebe desta coisa de ser mãe! A Senhora desculpe a minha ousadia, mas será que também não seria possível fazer uma lei para os miúdos poderem ficar a dormir na escola? Bastava mandar retirar as mesas e cadeiras das salas de aula e substituí-las por beliches, à noite. De manhã, era só desmontar e voltar a arrumar. Têm bar, cantina e até duche. Com jeito, eles ainda aprendiam alguma coisinha sobre tarefas domésticas, porque, em casa, não os podemos obrigar a fazer nada ou somos acusados de exploradores do trabalho infantil com a ameaça dos putos ainda poderem apresentar queixa junto das autoridades policiais.

Ao Sábado, Srª Ministra, podiam ocupá-los com actividades desportivas ou de grupo, teatro, catequese, escuteiros, defesa pessoal…

O ideal mesmo era que os pudéssemos ir buscar ao Domingo, só para não se esquecerem dos rostos familiares.

O meu medo, Srª Ministra é aquela ideia que a minha vizinha Sandrinha, aquela dos três ganapos, comentava hoje comigo. Dizia-me que a Senhora Ministra quer criar o ensino doméstico. Eu acho que ela deve ter ouvido mal ou então confundiu o jornal da SIC com aquele programa da troca de casais do canal 24. Eu acho que isso não vinga em Portugal, porque não temos a extensão de uma América do Norte ou de uma Austrália e, por outro lado, tinha que comprar e equipar os VEI (veículos de educação itinerante), o que iria agravar mais o deficit das contas públicas e o insucesso dos nossos miúdos. Foi isso eu disse à Sandrinha. Acho que ela deve estar enganada. Logo agora, que podemos respirar de alívio porque não temos que nos preocupar com a escola dos garotos, essa ideia vinha destruir tudo, porque os obrigava a ficar em casa para receberem os VEI e aos pais ainda iria ser exigido algum acompanhamento.

A Senhora faça é aquilo que decidiu e não oiça o que os inimigos dos pais e das mães lhe tentam dizer (já agora, lembre-se da minha sugestãozita!). Assim, os professores, com medo da sua própria avaliação, passam a dar boas notas e a passar todos os miúdos e, desta forma, o nosso país varre o lixo para debaixo do tapete, porque é muito feio e incomodativo mostrarmos, lá fora, que somos menos capacitados que os nossos "hermanos" europeus.


Uma mãe e encarregada de educação agradecida

Ex. ma Senhora Ministra da Educação

C/conhecimento:

Presidente da Assembleia da República

Primeiro Ministro

Ministra da Educação

Procurador Geral da República

Provedor da Justiça

O Conselho Pedagógico da Escola Secundária Pluricurricular de Santa Maria Maior, em Viana do Castelo, reunido a 05/03/08, aprovou, por unanimidade, o seguinte memorando que trazemos à consideração de V. Exª

1. A avaliação não é uma novidade para os Docentes.
  1. Regemo-nos até aqui pelo modelo de avaliação instituído pelo Decreto Regulamentar nº 11/98 de 15 de Maio, o qual contemplava uma avaliação baseada na Formação Contínua e na apresentação de um Relatório Crítico; e, se na avaliação do desempenho, todos tivemos ,´Satisfaz, é porque nunca foi regulamentada a atribuição da menção qualitativa de Bom e de Muito Bom;
  2. Possuímos licenciaturas; (alguns de nós) cursos de pós-graduação, mestrados, doutoramentos;
  3. Fizemos estágio pedagógico; alguns de nós prestaram provas públicas para acesso ao 8º escalão;
  4. Frequentámos/dinamizámos/realizámos acções de formação, congressos, encontros, seminários científicos;
  5. Alguns de nós são autores de obras científico-pedagógicas (livros e/ou artigos científicos);
  6. Temos uma profissão de grande visibilidade e amplificação – somos, diariamente, avaliados pelos nossos alunos, respectivos encarregados de educação, a comunidade em geral, os nossos colegas;
  7. Não tememos, por isso, a avaliação. Não é de uma questão de ‘sentimentos’ que se trata. Consideramos mesmo ser a avaliação um elemento integrante do processo rigoroso de desenvolvimento educativo/ profissional.
2. O modelo de avaliação instituído pelo Decreto regulamentar 2/2008 desestabiliza as escolas

  1. É demasiado pesado e burocrático;
  2. Ocupa-nos tempo de mais, desvia-nos do nosso objectivo fundamental – ensinar;
  3. Inquina as relações entre colegas - já não bastava a divisão artificial entre professores/professores titulares, produto de um concurso injusto onde a actividade docente foi desvalorizada - agora, uns são avaliadores e outros avaliandos, num processo perverso em que professores licenciados avaliarão doutorados; mais perverso ainda, os avaliadores de hoje serão avaliandos amanhã e vice-versa;
  4. Integra paradoxalmente, no mesmo grupo de docentes para progressão na carreira, quer o professor avaliador, quer os que por si são avaliados - avaliador e avaliado são concomitantemente partícipes no mesmo processo de progressão na carreira;
  5. Dificulta a partilha (essencial a uma didáctica aferida e devidamente generalizável) e pode ser gerador de conflitualidade e individualismo, numa profissão que se deverá pautar pelo rigor científico, mas também por um relacionamento afectivamente estável (de facto, só uma ínfima minoria poderá obter a classificação de Muito Bom ou Excelente);
  6. Presume que avaliar alunos e colegas requer as mesmas competências, pelo que se dispensa de proporcionar formação especializada aos avaliadores;
  7. Considera os resultados dos alunos um item a avaliar o que, já de si potencialmente perverso, cria, de novo, situações desiguais entre colegas – por exemplo, não há duas turmas iguais; há disciplinas em que é muito mais fácil ter sucesso do que noutras; nem todas as disciplinas são sujeitas a avaliação externa;
  8. Possui itens/dimensões subjectivos de avaliação (por exemplo, a dimensão ética) e sem clarificação dos observáveis;
  9. Num contexto estrito de avaliação de desempenho, apresenta a possibilidade de intervenção dos Encarregados de Educação (artigo 18º. 3), elementos que de forma directa detêm no processo a posição de interessados e que de forma indirecta (através dos seus educandos) recolhem e inferem os fundamentos da sua apreciação. Tal possibilidade parece-nos incongruente, dado que o artigo 12º circunscreve como avaliadores o Coordenador do Departamento Curricular e o Presidente do Conselho Executivo e é, de facto, estritamente de avaliação de desempenho do pessoal docente que trata o presente Decreto Regulamentar (cf. pp. 225, 226 e passim).
3. O Ministério da Educação iniciou o processo de forma pouco consequente e perturbando seriamente o normal funcionamento da escola.
  1. Na mesma data, foram publicadas as fichas de avaliação do desempenho (nem todas; até hoje ainda não foram publicadas as relativas à avaliação dos avaliadores);
  2. Foi publicado o Decreto Regulamentar 4/2008 de 5 de Fevereiro, que define a composição e o modo de funcionamento do Conselho Científico para a Avaliação de Professores - CCAP - (Artigo 6º, 2 do Dec. Reg. 2/2008) e do qual transcrevemos o artigo 12º- O CCAP deve estar constituído no prazo máximo de 60 dias a contar da data de publicação do presente decreto regulamentar. (Se acaso fosse possível implementar o processo nos moldes e prazos que o ME preconiza, não percebemos qual seria a necessidade da constituição deste órgão que só poderia fornecer indicações a posteriori);
  3. A 13 de Fevereiro, foi publicada, em papel não timbrado e sem assinatura, uma nota de alteração de prazos que atribui às escolas a responsabilidade de gerir os prazos intermédios, desde que, entre outras exigências, os professores contratados sejam avaliados no presente ano lectivo (para avaliar os professores contratados não é necessário proceder à elaboração de instrumentos de registo, indicadores de medida, etc.?);
  4. A 26 de Fevereiro, foi divulgado, no site da DGRHE, o despacho de delegação de competências, ainda não publicado em Diário da República, que prevê, por exemplo, que quando os docentes avaliadores se encontrem em observação de aulas sejam substituídos por outros do mesmo grupo de recrutamento, por forma a que não se verifique qualquer prejuízo para os alunos e se mantenha em funcionamento a unidade do grupo/turma. (Se um avaliador tiver que avaliar 10 colegas, poderá ter de ser substituído em 30 aulas, num só ano lectivo, o que corresponde, em algumas disciplinas, a um terço do total de aulas previstas na planificação anual);
  5. Na mesma data, a DGRHE publicou dois textos, nenhum assinado – Duas notas de leitura temática, uma relativa à constituição, competências, etc. da Comissão de Coordenação da Avaliação do Desempenho (primeiro passo para a implementação do modelo) e outra relativa aos impedimentos da CCAD/Avaliadores;
  6. Nessa mesma data, foi publicado um texto de apoio da autoria de duas professoras da Universidade de Lisboa – Algumas considerações a propósito da avaliação do desempenho dos professores;
  7. Ainda na mesma data, foi publicada a Circular nº B080002111G que, além de reafirmar a obrigatoriedade de proceder à avaliação dos professores contratados até final do presente ano lectivo, acrescenta que também têm que ser avaliados aqueles que, para efeitos de progressão na carreira, carecem de conclusão do processo de avaliação;
  8. Finalmente:

    Quando estará estabilizada a produção e envio à escola da documentação relativa à avaliação?
    Como pode este Decreto-Regulamentar (pp. 226) ‘promover e premiar o mérito e valorizar a actividade lectiva […] para a dignificação da profissão docente e para a promoção da auto-estima e motivação dos professores’?

4. A nossa escola não tem condições para implementar este modelo no presente ano lectivo.

  1. Somos uma Escola Secundária com tradição de empenhamento e rigor e orgulhamo-nos de fazer bem o nosso trabalho;
  2. Temos alunos dos 10º, 11º e 12º anos (muitos dos quais serão submetidos a avaliação externa); aplicamos as provas intermédias de Biologia e Zoologia, Física e Química e Matemática; fazemos periodicamente exames para estrangeiros;
  3. Apesar de considerarmos que não estavam criadas todas as condições para o fazermos, começámos a trabalhar para a implementação do Dec. Reg. 2/2008 imediatamente após a sua publicação. Esse trabalho tem exigido muitas horas de trabalho extraordinário e continuado, colidindo já seriamente com o nosso trabalho da componente individual (preparação de aulas, elaboração e correcção de testes,…);
  4. Temos muito trabalho feito, mas estamos longe de ter tudo pronto para se iniciar o processo;
  5. A pouco mais de uma semana do final do 2º período, teremos que dar, de forma serena, prioridade absoluta e, portanto, exclusiva à avaliação dos nossos alunos, pelo que não poderemos continuar a trabalhar em instrumentos de registo, etc., de modo a proceder à avaliação dos professores a que se refere a supra citada Circular nº B080002111G;
  6. Mesmo que pudéssemos fazê-lo, que sentido faria avaliá-los no 3º período apenas?
  7. Sabemos que há escolas, como a Senhora Ministra da Educação salienta, que têm o processo adiantado, mas só encontramos uma explicação possível para tal facto – terem iniciado o trabalho ANTES da publicação da lei; aliás, temos conhecimento directo de documentos datados de Outubro, o que, no mínimo, é insólito, dado que o normativo em questão apenas foi publicado em Janeiro!
  8. Não pode o Conselho Pedagógico continuar a estar permanentemente reunido, já que os seus membros tanto internos como externos não podem eximir-se às funções e cargos que desempenham.

5. Sugerimos que:

  1. O Dec. Reg. 2/2008 seja suspenso para que possam ser modificados os seus aspectos mais controversos, de modo a restituir às escolas a serenidade indispensável à promoção do sucesso educativo;
  2. O presente ano lectivo seja considerado o ano zero da implementação do referido decreto;
  3. O ME cumpra a sua parte e regulamente todos os aspectos que deveriam ser anteriores ao início do processo nas escolas, a fim de que o próximo ano lectivo se possa iniciar sem sobressaltos;
  4. Os professores a que se refere a Circular nº B080002111G sejam tratados nos termos da legislação anterior à publicação do Dec. Reg. 2/2008.


Escola Secundária Pluricurricular de Santa Maria Maior, 5 de Março de 2008


A Presidente do Conselho Pedagógico

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(Maria Manuela Coruche Malhado)

quinta-feira, 13 de março de 2008

Organizando Ideias

Prioridades em matéria de contestação, por ordem decrescente de gravidade, mesmo se não for por ordem sequencial de calendário.

  • O Estatuto da Carreira Docente e a sua forma de garrotar horizontalmente a progressão.
  • A municipalização das políticas educativas (que vou subtilmente distinguir de uma verdadeira territorialização das ditas).
  • O modelo de avaliação que ou se transforma num pesadelo burocrático ou numa piedosa ficção para auto-satisfação de alguns fanáticos de grelhas de observação e registo em Excel.

O facto desta última questão ser a que está agora em cima da mesa, mais à vista, não deve ocultar todo o resto.

Uma proposta de trabalho

Em nada terá adiantado a luta dos Professores se não forem, de uma vez por todas, resolvidas as situações anómalas do Estatuto da Carreira Docente (ECD), porque é isso que, na essência de todos os problemas, está em causa.

PROPOSTA DE TRABALHO

Carreira

  • Abolição da figura de professor titular;
  • Abolição imediata das quotas para progressão;
  • Constituição de carreira docente única constituída por 10 escalões;
  • Permanência nos escalões por períodos de 4 anos (10 escalões x 4 anos = 40 anos de serviço).

Progressão na Carreira

  • Abolição da avaliação de Excelente. Não tem justificação científico-pedagógica.
  • Para progredir, o docente deverá apresentar competente relatório de actividade docente de dois em dois anos, no cumprimento exemplar de parâmetros a regulamentar.
  • O relatório de actividade docente deverá ser submetido à apreciação e decisão de Comissão Científica e Pedagógica Especializada constituída por:
    • Presidente do Conselho Pedagógico;
    • Presidente do Conselho Executivo;
    • Coordenador do Departamento do docente em avaliação;
    • Coordenador dos Directores de Turma;
    • Director do Centro de Formação;

· Para progredir, o docente deverá ter na avaliação a menção de Bom, no cumprimento de critérios a regulamentar;

· Garantir a possibilidade de o docente poder progredir mais rapidamente no escalão, de acordo com critérios a regulamentar, se tiver a menção de Muito Bom.

Para o efeito, o docente deverá requerer avaliação extraordinária de desempenho, que implicará a exposição e defesa da sua actividade docente, sustentada no seu relatório, perante a Comissão Científica e Pedagógica Especializada, que para além dos elementos já indicados deverá ser complementada por:

  • Técnico Pedagógico da Direcção Regional de Educação;
  • Inspector Pedagógico da IGE;
  • Professor da disciplina, do 8º, 9º ou 10º escalão, a indicar pelo docente em avaliação;
  • Presidente da Associação de Pais da Escola.
  • O docente não poderá progredir para escalão superior, enquanto não tiver duas (2) menções de Bom no escalão em que se encontra posicionado.
  • A menção de Suficiente implicará a obrigatoriedade de frequentar formação complementar adequada, a regulamentar.
  • A menção de Insuficiente implicará a abertura de processo de averiguações para apuramento de responsabilidades, podendo conduzir a processo disciplinar.
  • Esta menção só poderá ser atribuída em avaliação subsequente a uma menção de suficiente e em caso limite, devidamente justificada em relatório bem fundamentado pela Comissão Científica Pedagógica Especializada. Da avaliação, poderá recorrer o docente avaliado ao abrigo do CPA.

    Creio que um processo como o exposto

    • Reduz drasticamente a burocracia;
    • Responsabiliza mais o professor no desenvolvimento da sua actividade docente, valorizando o processo ensino-aprendizagem e favorecendo o sucesso dos seus alunos;
    • Envolve todas as partes efectivamente interessadas no sucesso dos alunos e na boa imagem da Escola, que se quer construtora positiva e activa da excelência na sociedade portuguesa.
    Viana, 12 de Março de 2008

    F. Manuel Rodrigues
    (Professor EB 2,3 Dr. Pedro Barbosa)

    Em protesto contra a política do Governo para a educação

    Oito presidentes de conselhos executivos do Centro vestiram de negro no Parlamento
    12.03.2008 - 19h38 Sofia Branco

    Eram para ser 33, mas o presidente da Assembleia da República pediu para que a comitiva se reduzisse a oito. O certo é que os presidentes dos conselhos executivos de todas as escolas da região Centro partilham preocupações e críticas em relação à política do Governo para a educação. Esta tarde, durante o plenário, os oito que os representaram manifestaram o seu protesto silencioso nas galerias do Parlamento, vestindo de negro.

    Na audiência com a comissão de Educação, pedida em inícios de Fevereiro e que decorreu esta manhã, a comitiva expôs as suas “angústias” face à “hemorragia legislativa” que “tem perturbado imenso o funcionamento das escolas desde Janeiro”, contou ao PÚBLICO Rosário Gama, militante socialista e presidente do conselho executivo da Infanta D. Maria, em Coimbra, a escola pública mais bem cotada no ranking oficial.

    “Tivemos de criar montes de equipas de trabalho” para lidar com a legislação que vai chegando, explicou. Além disso, o facto de as mudanças estarem a decorrer “a meio do ano” e “sob pressão” tem feito com que “os professores não estejam dedicados ao seu trabalho nas escolas, que é dar aulas”.

    A comitiva das escolas do Centro queixou-se ainda da “falta de formação para avaliadores” e manifestou-se contra as alterações a nível da gestão escolar. “Vamos voltar à figura do velho reitor, com uma absurda concentração de poderes num órgão unipessoal. É o fim do órgão colegial. A eleição pelos pares foi uma conquista democrática, agora volta-se para trás”, afirmou Rosário Gama, reconhecendo que as alterações “doem mais porque vêm do PS”.

    Os presidentes dos conselhos executivos saíram da reunião com a comissão com a impressão de que os deputados “ficaram sensibilizados para as questões levantadas”. Mas fizeram questão de realçar que apenas “três deputados socialistas” estavam presentes (são 22 ao todo), porque “os restantes abandonaram a sala”. “Queríamos que os outros [deputados socialistas] lá estivessem para nos ouvir”, frisou Rosário Gama. Apenas a socialista Teresa Portugal usou da palavra, sendo já conhecida a sua oposição a muitas das políticas do Governo para o sector da educação.

    http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1322388

    Acabou-se

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    MárioCrespo, Jornalista

    Maria de Lurdes Rodrigues não tem condições para continuar a gerir o sistema de educação em Portugal. Porque já não é eficaz nessa função. Porque é um facto insofismável que o pessoal que ela administra não aceita a sua administração. Isso esvazia de conteúdo as suas funções. Já não está em causa a eficácia da sua política. A questão é que ela não vai conseguir implementar as boas ideias que tem, nem impor as más. O argumento de a manter no cargo para não "desautorizar" o Primeiro-ministro é falso e perigoso. Mantendo-a nas funções que desempenha a desautorização do governo de Sócrates é constante. Chegou a altura de ver que isso é mau para os alunos. Só podem ser eles quem está em causa. Não pode haver razões de defesa de imagem política que justifiquem esta intransigência porque a manutenção de um percurso de imposição administrativa começa a ser um risco de segurança nacional. É péssimo para o quotidiano escolar ter um sistema totalmente desautorizado com professores a desafiarem o governo e o governo a desautorizar-se em frémitos de afirmação de voluntarismo vazio.

    Da necessidade de reformas sabe-se com fundamento científico desde o trabalho de Ana Benavente que denunciou que um quarto dos portugueses mal sabia ler e que só dez por cento da população é que entendia completamente aquilo que está escrito. Mas esse estudo tem década e meia e nada de substancial foi feito no entretanto. Por isso, o que está em questão não é a avaliação de professores. Apreciações de desempenho são meros pormenores de gestão de pessoal. O que é preciso, como consta de uma lúcida reflexão dos docentes da Escola Rainha D. Amélia, é fazer a escola cumprir com as suas funções na socialização de crianças e jovens. É promover a criação de hábitos de disciplina interiorizados que se multipliquem depois na vida adulta. Entre Cavaco Silva, o governante confrontado com o estudo de Ana Benavente, e José Sócrates, este processo de calamitosa estupidificação do país não foi interrompido por um projecto lúcido. O governo actuou agora como se o problema estivesse nos docentes e não no sistema de docência e nos curricula. Actuou como se o problema único de Portugal fosse o do excesso de privilégios e não o do defeito de cultura.

    E assim as frágeis construções da demagogia política trouxeram, mesmo com a intimidação de PSPs à paisana e processos disciplinares da DREN, uma centena de milhar para as ruas de Lisboa. E o Primeiro-ministro mostrou a sua fibra assistindo em silêncio ao martírio de Maria de Lurdes Rodrigues que se desdobrou nas TVs a tentar demonstrar o indemonstrável axioma socrático que a sua política é infalível e o défice de compreensão é do país. A resposta de Sócrates foi a de marcar uma manifestação de desagravo para o Porto. Primeiro era para ser na rua, depois numa praça, depois num pavilhão e vai sempre soar a falso no clamor sem fim das turbas dos indignados. Foi um contra-ataque ridículo no meio de muito comportamento bizarro. O Professor Augusto Santos Silva protagonizou o momento de infelicidade quando em Chaves quis assinalar os três anos de governação numa espécie de estágio para o anunciado comício do desagravo. Foi vaiado. Ripostou tentando conjurar os seus Manes. Invocou os nomes dos pais fundadores, dos velhos companheiros que diz serem os seus da luta que diz ser a sua. Salgado Zenha, Mário Soares e Manuel Alegre. E nenhum lhe respondeu. Tentou depois o exorcismo, amaldiçoando os seus demónios pessoais, os grandes e os mais pequenos. Álvaro Cunhal e Mário Nogueira. E nenhum lhe respondeu. Ouviu vaias cada vez mais altas e a voz embargou-se e disse: "eu não me calo...eles calam-se primeiro que eu." Depois repetiu, baixinho como que a querer convencer-se "...eles calam-se primeiro que eu". E não se calaram. Ao ouvir na Antena 1 este terrível registo de desgovernação só me ocorreram as sábias palavras de Juan Carlos para o tiranete venezuelano: "por que no te callas".


    Mário Crespo escreve no JN, semanalmente, às segundas-feiras
    (10.3.08)

    Professor impedido de receber prémio

    15 de Março no Porto - TODOS para o Pavilhão do Académico

    "O comício nacional do PS marcado para o dia 15 de Março no Porto, que levará José Sócrates ao reencontro com as bases, foi transferido da Praça de D. João I para o Pavilhão do Académico, uma mudança que "protegerá" o líder socialista de qualquer imprevisto vindo da rua." (Público, 06.03.08)

    Ver localização aqui

    quarta-feira, 12 de março de 2008

    A lição do professor Marcelo


    "Se todos os professores se recusarem a concretizar o processo de avaliação de desempenho, a ministra não vai poder levantar processos disciplinares a todos. E, assim, a avaliação de desempenho fica suspensa."


    Marcelo Rebelo de Sousa, RTP1

    sábado, 8 de março de 2008

    FORMAS DE LUTA ANUNCIADAS

    • A realização de uma semana nacional de luto nas escolas - 10 a 14 de Março;
    • Abaixo-assinado para entregar ao primeiro-ministro;
    • "Segundas-feiras de Protesto" durante todo o terceiro período;

    MARCHA DA INDIGNAÇÃO

    Quem lá esteve, que comente!
    Quem lá esteve, que diga pelas suas palavras o significado dos 100.000 professores (houve alguém que não percebeu...)!
    Quem lá esteve, que diga que está disposto a continuar a lutar por aquilo em que acredita!

    Quem lá esteve ... que tenha orgulho da posição que tomou!