segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Com orgulho em Ermesinde

Olá colegas,

Se ainda não é do vosso conhecimento, eu e a minha colega Ana Virgínia, decidimos tornar pública a nossa posição de contestar esta Avaliação de Desempenho. O documento já se encontra afixada na sala de professores. Não entregaremos os nossos objectivos individuais, o que equivale a dizer que não daremos início ao nosso processo de avaliação de desempenho. As razões que nos levam a isso são óbvias e estão bem expressas no documento que vos envio em anexo.

Queria dizer-vos ainda que oficializar a minha posição está muito longe de ser uma atitude de coragem. É antes e, simplesmente, o mínimo que posso fazer para estar ao lado de cada um dos colegas que, à revelia da lei, luta por todos nós, dentro dos Conselhos Pedagógicos, nas suas escolas, a dizer “sim” à suspensão deste processo vergonhoso . Esses, sim, agem com grande determinação e extrema coragem, uma vez que estão sujeitos a sanções. Esses, sim, esperam não estar sozinhos e precisam de muitos “sim” noutras Escolas. Estou convencida de que as sanções não virão se forem muitos, se forem todos. Considero ainda que, para além da vontade de contestar e de fazer ouvir a nossa voz, temos também a responsabilidade moral de dar o nosso contributo a cada um desses colegas que se sujeita a penalizações para lutar pela dignidade de uma classe, pela dignidade de cada um de nós.

Um bem haja a cada um deles.

Como não tenho o e-mail de todos os colegas da Escola, pedia a cada um de vós que reenviasse esta mensagem a outros colegas cujo e-mail seja do vosso conhecimento.

Obrigada e até amanhã.

Rosângela
Ana Virgínia


TOMADA DE POSIÇÃO PÚBLICA

Vimos por este meio tornar pública a todos os colegas da Escola Secundária de Ermesinde a decisão de contestarmos a Avaliação de Desempenho prevista no Decreto Regulamentar 2/2008 de 10 de Janeiro.
Contestamos este modelo de avaliação porque

1. Impõe uma avaliação que não proporciona um clima de harmonia nas Escolas, promove a competição entre colegas e inviabiliza o trabalho cooperativo, absolutamente necessário ao exercício da função docente com qualidade;

2. O sistema de quotas a que ficam sujeitos todos os docentes (os que são simplesmente avaliados e os que são simultaneamente avaliados e avaliadores) à qual ambos concorrem para a progressão na carreira, coloca muitas dúvidas quanto à garantia de imparcialidade da avaliação, tanto mais que o avaliador intervém num procedimento administrativo no qual possui interesses próprios – situação incompatível com o disposto no artº 44º, a) do Código de Procedimento Administrativo. Assim sendo, as circunstâncias acima descritas não suscitam a relação de confiança necessária entre avaliadores e avaliados;

3. O critério de selecção dos avaliadores assenta numa divisão artificial, injusta e economicista da carreira em duas categorias – Professor e Professor Titular –, que decorreu através de um concurso que unicamente valorizou a ocupação de cargos nos últimos sete anos, independentemente de qualquer avaliação da sua global competência pedagógica, científica e técnica ou certificação da mesma;

4. Não existe legitimidade no exercício das funções de avaliadores, por professores titulares com competências delegadas, por não ter sido cumprido o preceito legal (artº 37º do Código de Procedimento Administrativo) que faz depender esse exercício de publicação em Diário da República;

5. A maioria dos docentes avaliadores não possui competências em Supervisão que permita uma avaliação baseada em critérios pedagógica e cientificamente ajustados e a formação proporcionada pelo Ministério da Educação não abrangeu todos os professores avaliadores e decorreu num período de tempo insuficiente;

6. A utilização de parâmetros de avaliação dos docentes que meçam a melhoria dos resultados escolares dos alunos relativamente aos obtidos no ano anterior e às taxas de abandono escolar menospreza os vários aspectos que envolvem o processo educativo, tais como a realidade sócio-económica, cultural e familiar dos alunos, eventuais problemas ocorridos no processo de ensino aprendizagem em anos anteriores, que não são da responsabilidade do professor responsável pela turma durante o ano lectivo corrente. O Abandono Escolar é, por sua vez, uma realidade que escapa ao controlo dos docentes da turma e cuja responsabilidade deve ser partilhada por todos os intervenientes no processo educativo;

7. A imputação de responsabilidade individual a um docente pela avaliação dos seus alunos configura uma profunda violação do previsto na legislação em vigor quanto à decisão da avaliação final do aluno, que é da competência do Conselho de Turma, sob proposta do(s) professor(es) de cada área curricular disciplinar e não disciplinar;

8. Sendo a avaliação dos alunos um dos parâmetros da avaliação de desempenho dos docentes, não é possível garantir o dever de imparcialidade destes aquando das propostas de avaliação em Conselho de Turma, dado que também são parte interessada nas consequências dessa mesma avaliação;

9. O aproveitamento dos alunos e o abandono escolar são variantes que introduzem uma grande heterogeneidade entre as várias turmas e podem proporcionar situações de injustiça na avaliação do desempenho de cada um dos docentes;

10. Este modelo de avaliação tem consumido não só o tempo dos professores, mas também a sua vida pessoal e a motivação que deveriam ter para dedicar ao alvo principal das suas funções - o aluno - todo o seu trabalho: a preparação de aulas e de actividades que proporcionem a formação e realização integral dos alunos e que promovam o desenvolvimento das suas capacidades, estimulem a sua autonomia e criatividade, de forma a garantir a formação de cidadãos civicamente responsáveis e democraticamente intervenientes na vida da comunidade.

Pelo exposto, não reconhecemos quaisquer efeitos positivos desta avaliação sobre a qualidade da Educação e sobre o nosso desempenho profissional.

Desta forma, atendendo à aparente inflexibilidade na mudança das políticas educativas e cientes das consequências que podem advir desta atitude, as professoras Ana Virgínia da Costa Pereira e Rosângela da Silva Costa declaram que, apesar de todo o respeito que merecem os órgãos de gestão desta Escola, não iniciarão o seu processo de avaliação, privilegiando e preservando, assim, a formação pessoal e o processo de aprendizagem dos seus alunos.

Ermesinde, 10 de Novembro de 2008.

4 comentários:

Anónimo disse...

vê lá se aprendes a escrever, otária!!!
vai mas é trabalhar

Anónimo disse...

e tu anónimo, estarás também a precisar de uns ovos na fuça?

Mário Agostinho disse...

Estes dois comentários provam bem que há algo de errado na "educação" já há uns bons anos...

Mário agostinho disse...

No processo racional da tomada de decisões deve-mos por de parte as nossas ideologias garantindo ao máximo a independência do raciocinio,argumentando com coerência e factualidade,no entanto e visto que nós portugueses temos uma cultura muito clubista mesmo em relação à politica, não podemos levar ao extremo o discordar por discoradar( em relação á posição de um partido partido ou pessoa que discordamos). Por isso é importante discutir os assuntos da forma que estão aqui a ser discutidos.
Há uma grande pressão dos sindicatos e do próprio ministério, há já a criação de um clima de medo entre os professores e instituiçõs devido ás opiniões dos professores,na forma de reprsálias a nivel social e profissional e ainda agora todo este processo começou,imagino sendo eu português, o clima que vai haver entre professores daqui a uns tempos. Uma coisa é certa de 140mil professores estiveram 110 a manifestar-se (tendo em conta que nem toda a gente seria professor,mas que também concerteza muitos professores gostariam de ter ido e não puderam) e isso é um sinaal mais que evidente que algo no processo não está bem.
Sou estudante de mestrado em Ecologia e nas ciências os trabalhos são avaliados por 2 juris anónimos que muito provavelmente estão a milhares de quilómetros de distãncia e nunca viram o autor “nem mais gordo nem mais magro”, ou seja, é um processo de auto-regulação entre cientistas que o fazem de graça, aplicando-se o bom senso de cada um…e mesmo assim ocorrem fraudes e há incompetência, a uma escala obvdiamente baixa tanto é que de uma forma geral resulta. Agora como é que garantimos este bom senso e imparcialidade a pessoas que diáriamente convivem, que trabalham juntas e supostamente cooperam para o bem dos alunos???Isto não faz qualquer sentido e tão pouco é saudável para a pessoa que está por trás de um professor, contribuindo mais para a situação psiquica que se tem vindo a degradar nesta classe, porquê?:
1-aturar os filhos dos outros- não é fácil
2-muito trabalho em casa (nem todos) não remunerado-custa a todos
3-extrema impunidade e vulnerabilidade face a ameaças fisicas e morais dos alunos e dos próprios encarregados de educação - haverá pior?
4-em muitos casos há instabilidade no local onde o docente vai leccionar no ano seguinte , impedindo que os professores criem planos de trabalho coesos e duradouros com uma boa margem de experimentação e recolha dos resultados, contribuindo para a decadência do processo de aprendizagem dos alunos, além dos aspectos pessoais que muitas vezes o local onde o docente vai leccionar trazem- não faz sentido
5-são pessoas-com tudo o que isso traz

Vamos querer juntar mais um factor de stress como a avaliação entre os professores? (e não vou comentar se os critérios da avaliação são os melhores e sujeitos a interpretações pessoais)

Se a senhora ministra já leccionou (se calhar foi numa escola privada)não compreendo como pode propor isto e não acaba já com este processo (muito provavelmente por razões estritamente politicas). O que é certo é que se existe a necessidade de avaliar os docentes, acho muito bem que o governo avance com medidas mas esta não me parece ser a melhor e apenas me foquei num aspecto deste processo que considero mais relevante.

Finalmente gostava de deixar alguns aspectos a nivel educativo para reflexão:
1- Os professores do ensino superior não são obrigados (e quase nunca acontece pelo menos na área das ciências) a possuirem qualquer formação pedagógica - parece-me que os alunos ficam a perder
2-o financiamento das faculdades dentro das universidades é carente de coerência-mais uma vez os alunos perdem
3-o projecto novas oportunidades o qual tive a oportunidade de acompanhar quando um familiar o realizou, traz um grande impulso a nivel pessoal e mais importante faz com que as pessoas tenham a noção das suas competências sendo extremamente positivo, no entanto a forma como está a ser anunciada é irreal, ´não há ou são residuais os conhecimentos adquiridos, quero dizer com isto que basicamente não se aprende, mas há maioritáriamente um processo de auto-reflexão - o anuncio audiovisual parece-me digno de ser considerado propaganda

Sugestão:
O ministério deve apriximar-se um pouco mais dos factores socio-culturais, e afastar-se um pouco dos objectivos da C.E.- só com esta abordagem se podem realizar medidas concretas e adaptadas à realidade,resolvendo os problemas cirurgicamente, e é nesse tipo de medidas que tem que ser gasto o dinheiro (leva tempo a colher os frutos mas foram criados na nossa horta)

P.S-parece-me incoerente extrapolar de empresas para o o processo educativo, os fins são diferentes, num ganhar dinheiro, noutro educar pessoas